Prato cheio, prato vazio
Recusar a comida ou não parar de comer: quando a demência mexe no apetite
Na casa de dona Zilda, a hora do almoço virou uma batalha. Ela fecha a boca, vira o rosto, empurra o prato. A filha insiste: “Só mais uma colher, mãe.” Dona Zilda cospe. A filha chora na cozinha.
Na casa de seu Raimundo, é o contrário. Ele acabou de almoçar e, vinte minutos depois, pergunta à esposa: “Já está pronto o almoço?” Abre a geladeira, esconde bolachas no bolso do casaco, come o pão da manhã seguinte à meia-noite. A esposa já escondeu os doces, discutiu, fechou a despensa.
Duas casas, dois pratos: um cheio e intocado, outro sempre vazio. Os dois são sintomas da demência. Nenhum é birra, e nenhum é gula.
Um prato cheio e intocado, outro sempre vazio.
Por que o apetite muda
A demência não afeta só a memória. Ela mexe em tudo o que o cérebro faz em torno da comida:
- A fome e a saciedade: o cérebro pode deixar de sinalizar “estou satisfeito”, ou de sinalizar “estou com fome”.
- A memória de ter comido: quem não lembra que almoçou tem fome de verdade meia hora depois.
- O reconhecimento: o prato, o talher, a própria comida podem deixar de fazer sentido.
- O gosto: a preferência muda, e muita gente passa a só querer doces.
- A confiança: quem desconfia de tudo pode achar que a comida está envenenada (veja Quando ele vê o que ninguém vê).
Por isso brigar não resolve. O que resolve é investigar primeiro e organizar a mesa depois.
Antes de tudo: o que mudou, e tem causa tratável?
Comer de menos ou demais, de repente, quase sempre pede uma busca por causas:
- Boca: dente com dor, dentadura frouxa, afta, candidíase (sapinho).
- Engasgo: quem engasga evita comer. Veja Quando engolir vira um desafio.
- Intestino preso, dor, infecção, falta de líquido.
- Depressão ou apatia (veja Quando a vontade some).
- Remédios: alguns tiram o apetite (inclusive os da própria demência), outros aumentam (corticoides e alguns antipsicóticos). Se a mudança começou depois de um remédio novo, conte ao médico.
- Delirium: se o apetite mudou em horas ou poucos dias, com sonolência ou confusão, procure atendimento. Veja os sinais de alerta.
Dente, dentadura, engasgo, remédio, febre: procure a causa antes de brigar com o prato.
Pese a pessoa a cada duas semanas, sempre na mesma balança, e anote. Perda de 5% do peso em um mês ou de 10% em seis meses é motivo de consulta, mesmo que ela “pareça bem”.
Quando come de menos
- Mesmo horário, mesmo lugar, sem televisão. Menos estímulo, mais atenção ao prato.
- Uma coisa de cada vez. Prato simples, porções pequenas, e prato de cor que contraste com a comida (um prato branco com arroz branco “some” para quem enxerga mal).
- Comida da história da pessoa. O que ela cozinhou e comeu a vida inteira vale mais do que o cardápio “ideal”.
- Coma junto. Ver alguém comer ajuda a lembrar como se faz.
- Várias refeições pequenas em vez de três grandes. Deixe à mão lanches que se pega com a mão (fruta, queijo, pão).
- Reforce sem aumentar o volume: azeite, ovo, leite em pó, queijo ralado. Suplementos industrializados, só com orientação.
- Se vira o rosto, pare. Espere alguns minutos e ofereça de novo. Forçar a colher assusta e aumenta a recusa.
- Não esqueça dos líquidos: água, suco, sopa, gelatina, fruta.
Em fases avançadas, comer menos pode fazer parte da evolução da doença. Isso precisa ser conversado com o médico, com calma e sem culpa. Na demência avançada, as diretrizes não recomendam sonda de alimentação: ela não prolonga a vida nem evita pneumonia, e o caminho é a alimentação cuidadosa pela boca, pelo tempo que for possível e confortável.
Mesa calma, sem televisão, prato de cor que contrasta e alguém comendo junto.
Quando come demais
- Horários fixos e refeições pequenas e frequentes, incluindo os lanches. Quando a pessoa sabe que “daqui a pouco tem”, a ansiedade da fome diminui.
- Prato montado na cozinha. Evite travessas e panelas à mesa.
- Deixe à vista o que é bom comer: fruta cortada, iogurte. Guarde o que não é: doces e biscoitos fora do campo de visão, em armário alto.
- Trava na despensa ou na geladeira, só se for preciso, e sem humilhar. Nunca deixe a pessoa ver que “estão escondendo”.
- Ocupe as mãos: dobrar roupa, descascar, folhear um álbum.
- Devagar: talheres pequenos, pedaços pequenos. Quem come muito rápido engasga mais.
- Atenção ao diabetes: se a pessoa usa insulina ou remédio para glicose e não lembra se comeu, há risco de hipoglicemia (ou de hiperglicemia). Fale com o médico sobre o esquema.
- Atenção ao que não é comida: sabão, plantas, produtos de limpeza. Guarde tudo fora do alcance e avise o médico.
Prato de fruta montado na cozinha e o lanche combinado: a espera fica mais tranquila.
Em vez de… experimente
| Em vez de | Experimente |
|---|---|
| “Você acabou de comer!” | “Vamos tomar um café? Daqui a pouco tem o lanche.” |
| “Come, senão eu fico triste.” | “Fiz o seu prato preferido. Quer experimentar um pedacinho?” |
| “Abre a boca!” | Parar, esperar, oferecer de novo depois |
| “Não pode comer isso!” | “Olha, tenho esta fruta aqui, bem docinha.” |
Quem cuida também come mal
Quando a refeição vira disputa, quem cuida sai exausto e culpado. Lembre-se de que recusar ou comer demais não é uma ofensa pessoal. Se a hora da comida está esgotando você, procure ajuda e leia Quem cuida também precisa ser cuidado.
O que levar à consulta
Anote em poucas linhas:
- Quando mudou: de repente ou aos poucos?
- O que a pessoa come em um dia (e quanto), por três dias.
- O peso, com as datas das pesagens.
- Engasgos, tosse ao comer, dor na boca, prótese solta.
- Remédios novos ou trocados.
- Se mexe no que não é comida.
Dois formulários do Cognisa ajudam: Estou Comendo Bem? e a Mini Avaliação Nutricional. O NPI-Q inclui apetite e alimentação entre os domínios. A página Deméter traz mais materiais sobre nutrição.
Para a geladeira: um checklist de uma página (PDF) com o essencial deste texto.
Duas cozinhas, depois
A filha de dona Zilda parou de insistir. Sentou ao lado da mãe, serviu um prato pequeno de cor viva e comeu junto, devagar, sem televisão. Dona Zilda olhou, esperou, aceitou três colheres. Foi pouco, mas foi sem briga.
A esposa de seu Raimundo montou o prato na cozinha, com fruta cortada, e anunciou o lanche das quatro. Ele esperou, tranquilo, olhando o relógio. Os biscoitos continuaram guardados no armário alto.
Nenhuma das duas resolveu a doença. As duas mudaram a mesa.
Fim da série
Este é o último texto da série sobre sintomas comportamentais e psicológicos da demência. Se você chegou até aqui, talvez queira rever os outros:
- Ele não consegue sossegar: agitação
- Quando o sol baixa: síndrome do entardecer
- Quando a noite vira dia: sono e vigília
- Quando ele vê o que ninguém vê: delírios e alucinações
- Quando a vontade some: apatia, depressão e ansiedade
Série: sintomas comportamentais e psicológicos associados à demência. Artigo 6: alimentação.
Este texto é informativo e não substitui a avaliação médica.