Família

Prato cheio, prato vazio

Recusar a comida ou não parar de comer: quando a demência mexe no apetite

#alimentação#nutrição#demência#cuidador#medicamentos

Dr. Fausto Azambuja · 7 min de leitura · 10 de outubro de 2026

Na casa de dona Zilda, a hora do almoço virou uma batalha. Ela fecha a boca, vira o rosto, empurra o prato. A filha insiste: “Só mais uma colher, mãe.” Dona Zilda cospe. A filha chora na cozinha.

Na casa de seu Raimundo, é o contrário. Ele acabou de almoçar e, vinte minutos depois, pergunta à esposa: “Já está pronto o almoço?” Abre a geladeira, esconde bolachas no bolso do casaco, come o pão da manhã seguinte à meia-noite. A esposa já escondeu os doces, discutiu, fechou a despensa.

Duas casas, dois pratos: um cheio e intocado, outro sempre vazio. Os dois são sintomas da demência. Nenhum é birra, e nenhum é gula.

Mesa vista de cima com dois pratos: à esquerda, um prato intocado e a mão de uma idosa afastando-o; à direita, um prato vazio e a mão de um idoso segurando o garfo. Um prato cheio e intocado, outro sempre vazio.

Por que o apetite muda

A demência não afeta só a memória. Ela mexe em tudo o que o cérebro faz em torno da comida:

  • A fome e a saciedade: o cérebro pode deixar de sinalizar “estou satisfeito”, ou de sinalizar “estou com fome”.
  • A memória de ter comido: quem não lembra que almoçou tem fome de verdade meia hora depois.
  • O reconhecimento: o prato, o talher, a própria comida podem deixar de fazer sentido.
  • O gosto: a preferência muda, e muita gente passa a só querer doces.
  • A confiança: quem desconfia de tudo pode achar que a comida está envenenada (veja Quando ele vê o que ninguém vê).

Por isso brigar não resolve. O que resolve é investigar primeiro e organizar a mesa depois.

Antes de tudo: o que mudou, e tem causa tratável?

Comer de menos ou demais, de repente, quase sempre pede uma busca por causas:

  • Boca: dente com dor, dentadura frouxa, afta, candidíase (sapinho).
  • Engasgo: quem engasga evita comer. Veja Quando engolir vira um desafio.
  • Intestino preso, dor, infecção, falta de líquido.
  • Depressão ou apatia (veja Quando a vontade some).
  • Remédios: alguns tiram o apetite (inclusive os da própria demência), outros aumentam (corticoides e alguns antipsicóticos). Se a mudança começou depois de um remédio novo, conte ao médico.
  • Delirium: se o apetite mudou em horas ou poucos dias, com sonolência ou confusão, procure atendimento. Veja os sinais de alerta.

Bandeja de madeira com dentadura em um copo d'água, escova de dentes macia, organizador de remédios, copo com canudo, termômetro e toalha. Dente, dentadura, engasgo, remédio, febre: procure a causa antes de brigar com o prato.

Pese a pessoa a cada duas semanas, sempre na mesma balança, e anote. Perda de 5% do peso em um mês ou de 10% em seis meses é motivo de consulta, mesmo que ela “pareça bem”.

Quando come de menos

  • Mesmo horário, mesmo lugar, sem televisão. Menos estímulo, mais atenção ao prato.
  • Uma coisa de cada vez. Prato simples, porções pequenas, e prato de cor que contraste com a comida (um prato branco com arroz branco “some” para quem enxerga mal).
  • Comida da história da pessoa. O que ela cozinhou e comeu a vida inteira vale mais do que o cardápio “ideal”.
  • Coma junto. Ver alguém comer ajuda a lembrar como se faz.
  • Várias refeições pequenas em vez de três grandes. Deixe à mão lanches que se pega com a mão (fruta, queijo, pão).
  • Reforce sem aumentar o volume: azeite, ovo, leite em pó, queijo ralado. Suplementos industrializados, só com orientação.
  • Se vira o rosto, pare. Espere alguns minutos e ofereça de novo. Forçar a colher assusta e aumenta a recusa.
  • Não esqueça dos líquidos: água, suco, sopa, gelatina, fruta.

Em fases avançadas, comer menos pode fazer parte da evolução da doença. Isso precisa ser conversado com o médico, com calma e sem culpa. Na demência avançada, as diretrizes não recomendam sonda de alimentação: ela não prolonga a vida nem evita pneumonia, e o caminho é a alimentação cuidadosa pela boca, pelo tempo que for possível e confortável.

Filha sentada ao lado da mãe à mesa da cozinha; as duas comem, num ambiente calmo, sem televisão; o prato da mãe é de cor que contrasta com a comida. Mesa calma, sem televisão, prato de cor que contrasta e alguém comendo junto.

Quando come demais

  • Horários fixos e refeições pequenas e frequentes, incluindo os lanches. Quando a pessoa sabe que “daqui a pouco tem”, a ansiedade da fome diminui.
  • Prato montado na cozinha. Evite travessas e panelas à mesa.
  • Deixe à vista o que é bom comer: fruta cortada, iogurte. Guarde o que não é: doces e biscoitos fora do campo de visão, em armário alto.
  • Trava na despensa ou na geladeira, só se for preciso, e sem humilhar. Nunca deixe a pessoa ver que “estão escondendo”.
  • Ocupe as mãos: dobrar roupa, descascar, folhear um álbum.
  • Devagar: talheres pequenos, pedaços pequenos. Quem come muito rápido engasga mais.
  • Atenção ao diabetes: se a pessoa usa insulina ou remédio para glicose e não lembra se comeu, há risco de hipoglicemia (ou de hiperglicemia). Fale com o médico sobre o esquema.
  • Atenção ao que não é comida: sabão, plantas, produtos de limpeza. Guarde tudo fora do alcance e avise o médico.

Idoso na cozinha; a esposa lhe entrega um prato de fruta cortada já montado; ao fundo, um relógio na parede. Prato de fruta montado na cozinha e o lanche combinado: a espera fica mais tranquila.

Em vez de… experimente

Em vez deExperimente
“Você acabou de comer!”“Vamos tomar um café? Daqui a pouco tem o lanche.”
“Come, senão eu fico triste.”“Fiz o seu prato preferido. Quer experimentar um pedacinho?”
“Abre a boca!”Parar, esperar, oferecer de novo depois
“Não pode comer isso!”“Olha, tenho esta fruta aqui, bem docinha.”

Quem cuida também come mal

Quando a refeição vira disputa, quem cuida sai exausto e culpado. Lembre-se de que recusar ou comer demais não é uma ofensa pessoal. Se a hora da comida está esgotando você, procure ajuda e leia Quem cuida também precisa ser cuidado.

O que levar à consulta

Anote em poucas linhas:

  1. Quando mudou: de repente ou aos poucos?
  2. O que a pessoa come em um dia (e quanto), por três dias.
  3. O peso, com as datas das pesagens.
  4. Engasgos, tosse ao comer, dor na boca, prótese solta.
  5. Remédios novos ou trocados.
  6. Se mexe no que não é comida.

Dois formulários do Cognisa ajudam: Estou Comendo Bem? e a Mini Avaliação Nutricional. O NPI-Q inclui apetite e alimentação entre os domínios. A página Deméter traz mais materiais sobre nutrição.

Para a geladeira: um checklist de uma página (PDF) com o essencial deste texto.

Duas cozinhas, depois

A filha de dona Zilda parou de insistir. Sentou ao lado da mãe, serviu um prato pequeno de cor viva e comeu junto, devagar, sem televisão. Dona Zilda olhou, esperou, aceitou três colheres. Foi pouco, mas foi sem briga.

A esposa de seu Raimundo montou o prato na cozinha, com fruta cortada, e anunciou o lanche das quatro. Ele esperou, tranquilo, olhando o relógio. Os biscoitos continuaram guardados no armário alto.

Nenhuma das duas resolveu a doença. As duas mudaram a mesa.

Fim da série

Este é o último texto da série sobre sintomas comportamentais e psicológicos da demência. Se você chegou até aqui, talvez queira rever os outros:

Série: sintomas comportamentais e psicológicos associados à demência. Artigo 6: alimentação.

Este texto é informativo e não substitui a avaliação médica.