Família

Ele não consegue sossegar

Quando a agitação aparece na demência

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Dr. Fausto Azambuja · 9 min de leitura · 06 de outubro de 2026

O café está na mesa, mas ninguém consegue sentar por muito tempo.

Seu Antônio se levanta, atravessa a sala, volta, mexe na cortina. A filha pede que descanse. Ele se senta por alguns segundos e levanta outra vez.

“Pai, o que o senhor quer?”

Ele não consegue explicar. Ela também já está cansada.

Essa cena pode acontecer em famílias que convivem com a demência. A inquietação recebe, no consultório, o nome de agitação psicomotora. Para quem cuida, costuma aparecer numa frase mais simples: “Ele não consegue sossegar”.

Cozinha iluminada pela manhã: uma mulher, sentada à mesa com o café, observa o pai, de costas, que segura a cortina junto à janela. “Ele não consegue sossegar.”

O corpo inquieto

A demência pode afetar o comportamento e a maneira de lidar com o que acontece ao redor. Algumas pessoas ficam inquietas, repetem movimentos, demonstram irritação ou têm dificuldade para aceitar ajuda.

Essas manifestações fazem parte do conjunto de sintomas comportamentais e psicológicos associados à demência. Neste primeiro artigo da série, vamos conversar sobre a agitação.

Agitação e agressividade podem ocorrer juntas, mas uma pessoa pode estar muito agitada sem agredir ninguém. E caminhar pela casa, por si só, não significa que exista um problema: importa observar se há sofrimento, mudança do padrão habitual ou risco.

O que pode estar incomodando?

Um senhor pensativo na poltrona, cercado por pequenos quadros: óculos, copo d'água, aparelho auditivo, travesseiro e relógio. Antes de concluir que é “da demência”, procure o que pode estar incomodando.

A dificuldade de falar sobre uma necessidade não faz essa necessidade desaparecer.

Antes de concluir que é “da demência”, observe: a pessoa pode estar com dor, fome, sede, intestino preso ou bexiga cheia, precisando ir ao banheiro. Pode ter dormido mal, estar com frio ou calor, com medo ou sem compreender o que alguém está tentando fazer.

Dor merece atenção especial. Quem tem demência muitas vezes não consegue dizer que sente dor. Ela pode aparecer como testa franzida, dentes cerrados, gemidos, proteção de uma parte do corpo ou, simplesmente, como agitação. Se houver suspeita, converse com o médico: dor tratada de forma regular pode reduzir a inquietação.

Óculos e aparelho auditivo também contam. Quem não enxerga ou não escuta bem entende o mundo como uma sucessão de sombras e vozes sem sentido. Confira se estão limpos, funcionando e sendo usados.

Uma televisão alta e várias conversas ao mesmo tempo podem tornar o ambiente difícil de acompanhar. Mudanças de casa, de cuidador ou de rotina também merecem atenção. E, se a inquietação piora no fim da tarde, leia o artigo sobre a síndrome do entardecer, nesta série.

A investigação não é uma prova que a família precisa resolver sozinha. São pistas para compartilhar com a equipe.

Na hora da agitação, menos pode ajudar

Uma mulher agachada, na altura dos olhos do pai, fala com calma numa sala com a televisão desligada e uma luz de abajur. Menos barulho, na altura dos olhos, com uma frase curta.

Quando todos falam ao mesmo tempo, a pessoa pode ficar ainda mais aflita. Experimente diminuir o barulho e deixar uma pessoa conhecida conduzir a conversa. Nosso tom de voz e nossa pressa também chegam até ela. Respirar fundo antes de se aproximar ajuda mais do que parece.

Aproxime-se pela frente, na altura dos olhos, sem movimentos bruscos. Use uma frase curta e dê tempo para a resposta, que pode levar até meio minuto. Fale como se fala com um adulto, e não como com uma criança. Esse jeito “carinhoso” de falar, com voz aguda e diminutivos, costuma ser percebido como desrespeito.

“Estou aqui com o senhor.” “Vamos para um lugar mais tranquilo?”

Evite discutir, exigir explicações ou cercar a pessoa. Se ela insiste em algo que não é real (“preciso buscar as crianças na escola”), não corrija nem discuta: acolha a preocupação que está por trás (“as crianças estão seguras, eu estou aqui”). Se o toque incomoda, respeite essa reação. O que tranquiliza uma pessoa pode irritar outra.

Não existe uma frase capaz de funcionar em todas as situações. Observar a resposta é parte do cuidado.

E se acontecer durante o banho?

Imagine alguém que não entende por que precisa tirar a roupa e sente mãos desconhecidas se aproximando. Um cuidado necessário pode ser vivido como ameaça.

Se houver resistência e for seguro interromper, faça uma pausa. Aqueça o banheiro antes, cubra o corpo com uma toalha, explique um passo de cada vez e tente novamente em outro momento. Um banho de leito ou de poltrona, com lenços próprios, pode resolver o dia sem transformar o banheiro num campo de batalha. Preserve a privacidade e procure entender o que desencadeou o desconforto.

A pergunta útil é: “Como podemos tornar este cuidado mais compreensível e confortável?”

Movimento pode encontrar um caminho

Um senhor de bengala e pulseira de identificação caminha de braço dado com a filha por um caminho ensolarado no jardim. Se a pessoa quer caminhar e pode, uma caminhada acompanhada ajuda.

Se a pessoa quer caminhar e consegue fazê-lo com segurança, uma caminhada acompanhada pode ser melhor aceita do que pedidos repetidos para permanecer sentada.

Também vale oferecer algo familiar: uma música de que ela gosta (de preferência da juventude), olhar fotografias ou participar de uma tarefa simples, compatível com suas capacidades. A música não funciona para todos, mas costuma valer a tentativa. Convide e observe, sem transformar a atividade em obrigação.

Quem caminha precisa de segurança: piso sem tapetes soltos, boa iluminação até o banheiro, calçado fechado e firme. Se a pessoa tem tendência a sair de casa e se perder, uma pulseira de identificação com nome e telefone de contato e uma trava na porta, fora do alcance da vista, podem evitar um susto grande.

Nem toda inquietação precisa terminar com a pessoa imóvel.

Quando a mudança é súbita

Uma mulher ao lado da cama de uma senhora sonolenta e confusa, com o telefone na mão, numa penumbra com abajur, copo d'água e óculos na mesa de cabeceira. Mudança em horas ou poucos dias pede avaliação rápida.

Uma pessoa que estava no seu padrão habitual e fica muito diferente em horas ou poucos dias precisa de avaliação rápida. Isso merece atenção especial se houver dificuldade nova para acompanhar uma conversa, sonolência incomum ou alternância entre momentos de muita confusão e aparente melhora.

Pode existir delirium: uma alteração aguda do funcionamento cerebral, inclusive em quem já tem demência. Infecções (como a urinária e a pneumonia, que no idoso muitas vezes nem dão febre), desidratação, doenças clínicas e mudanças de medicamentos estão entre as causas a investigar.

Procure atendimento de emergência (SAMU 192 ou a ambulância do seu serviço de saúde/plano, cujo número costuma estar na carteirinha) se houver falta de ar, redução da consciência, sinais de AVC, febre com confusão, recusa total de líquidos por mais de um dia, suspeita de queda com fratura ou perigo imediato.

Diante de ameaça física, mantenha distância segura, não fique entre a pessoa e a saída, retire objetos perigosos e outras pessoas da situação e peça ajuda. Não tente conter a pessoa sozinho: segurar ou amarrar por desespero aumenta o pânico e o risco de lesão.

E os medicamentos?

Mãos de uma senhora e de um médico separando caixas, frascos e cartelas de remédios sobre uma mesa de madeira, com um caderno e uma xícara de café. Leve todas as caixas para a consulta.

Em algumas situações, eles são necessários. A decisão deve considerar a causa, o sofrimento, os riscos e a resposta às medidas de cuidado.

Três avisos práticos:

1. Calmantes e remédios para dormir (benzodiazepínicos), conhecidos pelos nomes de caixa Rivotril (clonazepam), Valium e Dienpax (diazepam), Lorax (lorazepam), Lexotan (bromazepam), Frontal (alprazolam) e também Stilnox (zolpidem). Em idosos com demência, costumam aumentar confusão, risco de delirium e quedas. Se a pessoa já usa há tempo, não suspenda de repente: a retirada brusca também causa agitação, insônia e até convulsão. A redução deve ser combinada com o médico.

2. Antipsicóticos, como Haldol (haloperidol), Risperdal (risperidona) e Seroquel (quetiapina), exigem especial cautela: podem causar sonolência, quedas e outros efeitos importantes, incluindo maior risco de AVC e morte em pessoas com demência. Quando indicados, precisam de objetivo definido e reavaliações. Avise o médico qual é o tipo de demência: em alguns tipos, como a demência com corpos de Lewy, a sensibilidade a esses remédios é grave.

3. Remédios que já estão na caixa. Alguns medicamentos comuns podem piorar a confusão e a inquietação: os de bexiga (Retemic, oxibutinina), de alergia e enjoo (Fenergan, Dramin, Benadryl, Hixizine), de enjoo e estômago (Plasil) e alguns antidepressivos (Tryptanol, amitriptilina). Leve todas as caixas para a consulta e pergunte: “algum desses ainda é necessário?”.

O tratamento deve buscar conforto e segurança, preservando a participação da pessoa na vida cotidiana. Não aumente doses nem acrescente calmantes por conta própria. Se a inquietação começou depois de um medicamento novo ou de uma mudança de dose, conte isso ao médico.

Leve uma cena para a consulta

Mãos de uma pessoa idosa escrevendo anotações num caderno aberto, ao lado de uma xícara de café, numa mesa iluminada pelo sol. Uma cena concreta vale mais do que “está muito agitado”.

“Está muito agitado” é uma informação importante. Um exemplo concreto ajuda ainda mais:

“Ontem, antes do banho, andou pela sala durante vinte minutos. Piorou quando duas pessoas tentaram ajudá-lo. Ficou mais tranquilo quando fizemos uma pausa.”

Registre quando aconteceu, o que veio antes, quanto durou e o que pareceu ajudar. O roteiro O que mudou no comportamento? pode organizar essas observações para a consulta.

E quem cuida?

Cuidar de quem não sossega cansa. Sono interrompido, tensão constante e a sensação de estar sempre em alerta desgastam qualquer um, e o cansaço de quem cuida também chega à pessoa cuidada.

Divida tarefas com outros familiares, combine blocos de descanso na semana e, se possível, conte com um cuidador de apoio. A ABRAz (Associação Brasileira de Alzheimer) mantém grupos de apoio para familiares e cuidadores em várias cidades do Brasil. Encontrar quem vive o mesmo desafio costuma aliviar mais do que se imagina.

Um café com o doutor

Duas xícaras de café numa mesa de madeira, e as mãos de um médico e de uma pessoa idosa sobrepostas, com a luz dourada da tarde ao fundo. Às vezes, o primeiro passo é entender o que mudou.

Há dias em que o café esfria enquanto a família tenta atravessar um momento difícil.

Você não precisa encontrar todas as respostas nem conseguir acalmar a pessoa sempre. Precisa de orientação, apoio e alguém com quem dividir o cuidado.

Observe o desconforto, proteja a segurança e compartilhe o que percebeu. Às vezes, o primeiro passo para cuidar melhor é entender o que mudou.

Fontes e leitura adicional

Série: sintomas comportamentais e psicológicos associados à demência. Artigo 1: agitação psicomotora.

Este texto é informativo e não substitui a avaliação médica.