Quando o sol baixa
A agitação do fim da tarde na demência
“De manhã ela fica mais tranquila. Mas, quando começa a escurecer, parece outra pessoa.”
Dona Lúcia passa a manhã na varanda, cantarolando, regando o vaso de violetas. À tarde, vai ficando quieta. Perto das cinco, começa a procurar a bolsa.
“Preciso ir para casa. Minha mãe está me esperando.”
Ela mora naquela casa há quarenta anos. A filha acaba de chegar do trabalho, ainda com a chave na mão, e sente o cansaço do dia pesar mais um pouco.
Muitas famílias reconhecem essa hora. No consultório, ela tem nome: síndrome do entardecer. Em casa, costuma aparecer numa frase só: “É sempre nesse horário”.
“Preciso ir para casa.”
Não é birra, e não é só o sol
Algumas pessoas com demência ficam mais inquietas, ansiosas, irritadas ou confusas no fim da tarde e no começo da noite. Isso não acontece com todas, e o nome engana: o padrão pode aparecer em outros horários. O que importa é perceber que a piora tem hora marcada.
Não é manipulação nem teimosia. É sinal de que um cérebro já vulnerável chegou ao limite do que consegue processar naquele dia.
O que pode estar por trás
A piora tem hora marcada, e quase sempre mais de uma causa.
As causas não são totalmente conhecidas, e provavelmente há mais de uma em jogo:
- Cansaço acumulado. Um dia inteiro de esforço para entender o que acontece ao redor pesa no fim da tarde.
- Relógio biológico desregulado. A demência pode bagunçar a distinção entre dia e noite.
- Luz que diminui. O ambiente escurece aos poucos, as sombras crescem nos cantos e a confusão visual aumenta.
- Necessidades do corpo. Fome, dor, bexiga cheia, intestino preso, sede.
- Barulho e movimento. Trânsito, gente chegando, televisão, várias conversas ao mesmo tempo.
- Pouca luz natural durante o dia e pouco movimento.
- Remédios. O efeito de uma dose pode passar justamente nessa hora, e alguns medicamentos pioram a confusão.
- Óculos e aparelho auditivo que não estão sendo usados.
- Tristeza e ansiedade, que muitas vezes passam despercebidas.
- A tensão de quem cuida. A pessoa percebe a casa mais apressada e o tom de voz mais tenso.
Observe por alguns dias o que costuma acontecer antes da agitação. Esse registro vale mais do que qualquer palpite.
O dia prepara a tarde
Muito do que ajuda no fim da tarde acontece de manhã.
Muito do que ajuda no fim da tarde acontece de manhã.
- Horários regulares para acordar, comer, fazer atividades e dormir.
- Luz natural e movimento durante o dia, conforme as capacidades da pessoa: uma volta no quarteirão, um tempo na varanda ou no jardim.
- Atividades e tarefas mais exigentes pela manhã. Visitas também.
- Cochilo curto, no começo da tarde. Cochilos longos ou tardios atrapalham o sono da noite.
- Cafeína, álcool e nicotina: evite, principalmente da tarde em diante.
- Um lanche no meio da tarde, para a fome não aparecer na pior hora.
Antes de escurecer
A regra é uma só: a luz acesa antes de a escuridão chegar.
Antecipar a noite costuma ajudar mais do que reagir a ela.
- Acenda as luzes e feche as cortinas antes de a casa escurecer. Prefira luzes quentes e difusas, que não criam sombras longas nem reflexos nas janelas.
- Diminua o barulho. Desligue o noticiário e a televisão alta. Uma música calma, de que ela goste, pode ajudar.
- Menos gente e menos tarefas nesse horário.
- Ofereça água ou um chá morno cedo, para não aumentar as idas ao banheiro à noite, e confira se precisa ir ao banheiro.
- Uma atividade simples e familiar: dobrar toalhas, folhear um álbum, olhar fotos.
- Banho em outro horário, quando a pessoa está mais tranquila.
- Jantar leve, sem pressa.
Os horários variam com a estação, a casa e a pessoa. A regra é uma só: a luz acesa antes de a escuridão chegar.
Quando ela diz “quero ir para casa”
Quem diz “quero ir para casa” está pedindo segurança, e não um endereço.
Quem diz isso, em geral, não está pedindo um endereço. Está pedindo segurança, o lugar onde se sentia protegida.
Não adianta explicar que ela já está em casa. Acolha o que está por trás da frase:
“Está tudo seguro por aqui. Pode descansar, eu estou com você.”
Se ela quiser, pergunte sobre a casa dela, sobre a mãe, sobre o que sente falta. Depois, convide para um chá ou para uma música. Corrigir e discutir costuma aumentar a agitação.
O que a ciência já mostrou, e o que não
Leve todas as caixas, inclusive melatonina e os “naturais”, à consulta.
Duas coisas costumam ser oferecidas às famílias nessa fase: caixas de luz (fototerapia) e melatonina. As revisões disponíveis não mostraram benefício claro de nenhuma das duas na demência. Uma revisão da Cochrane concluiu que não há evidência suficiente para justificar a luz brilhante, e outra, sobre remédios para o sono, encontrou pouco ou nenhum efeito da melatonina.
Isso não torna a luz natural da manhã inútil: ela é gratuita, segura e faz parte de um dia bem organizado. Mas não prometa milagre a si mesmo nem se culpe se uma caixa de luz comprada na internet não resolveu. O que mais sustenta o manejo é a rotina, o ambiente calmo e a investigação de causas tratáveis.
Nem tudo é entardecer
O horário não explica tudo. Fique atento a estes sinais:
- Mudança súbita, em horas ou poucos dias, ou muito diferente do habitual: pode ser delirium (veja o artigo 1 da série). Mesmo acontecendo à tarde, pode haver infecção, desidratação ou efeito de remédio.
- Ver pessoas ou bichos que não estão lá, junto com sono muito agitado: avise o médico. Pode ser um tipo específico de demência (a demência com corpos de Lewy), em que alguns remédios exigem cuidado redobrado.
- Dor no fim do dia, quando o efeito do analgésico passa.
- Ronco alto com pausas na respiração durante o sono.
- Remédio novo ou dose alterada.
- Tristeza, choro fácil ou desinteresse.
Procure atendimento de emergência (SAMU 192 ou a ambulância do seu serviço de saúde/plano, cujo número costuma estar na carteirinha) se houver falta de ar, redução da consciência, sinais de AVC, febre com confusão, recusa total de líquidos por mais de um dia, suspeita de queda com fratura ou perigo imediato.
E os medicamentos?
Calmantes dados “só para a noite” são a tentação mais comum nesse horário, e a que mais merece cuidado. Rivotril, Valium, Dienpax, Lorax, Lexotan, Frontal e Stilnox costumam aumentar a confusão, o risco de delirium e de quedas em quem tem demência. Se a pessoa já usa há tempo, não suspenda de repente: combine a redução com o médico.
Os antipsicóticos (Haldol, Risperdal, Seroquel) exigem ainda mais cautela, com objetivo definido e reavaliação. Os detalhes estão no artigo 1. Melatonina e remédios “naturais” para dormir também merecem uma conversa antes de começar. Leve todas as caixas à consulta.
Uma semana de anotações
Poucos dias de anotações mostram o padrão ao médico.
Durante alguns dias, anote:
- a hora em que a agitação começou;
- o que aconteceu antes (barulho, visita, fome, banho, cansaço);
- quanto tempo durou;
- o que ajudou.
Essas anotações mostram ao médico o padrão e permitem testar uma mudança de cada vez. O roteiro O que mudou no comportamento? pode organizar o registro, e o roteiro do fim da tarde, em uma página, serve para deixar na geladeira.
E quem cuida?
As cinco da tarde também são uma hora difícil para quem cuida. Quem chega do trabalho, quem está sozinho desde cedo e quem já não tem mais energia sente o peso dobrar.
Divida o turno: combine quem assume a partir das 16h, para ninguém cuidar sozinho no pior horário. Se você acabou de chegar, respire antes de entrar. Um tom de voz mais calmo ajuda a pessoa e ajuda você. A ABRAz tem grupos de apoio para cuidadores em várias cidades.
Um café com o doutor
Uma hora difícil e conhecida, com um jeito de atravessá-la.
Há tardes em que a luz vai embora mais cedo do que a paciência.
Você não precisa impedir o anoitecer. Basta acender a luz antes dele, baixar o barulho, oferecer algo quente e ficar por perto.
Nem toda noite será tranquila. Mas uma hora difícil e conhecida, com um jeito de atravessá-la, é uma hora que a família já sabe enfrentar.
Fontes
- Alzheimer’s Association. Sleep issues and sundowning.
- Alzheimer’s Society. Sundowning.
- National Institute on Aging. Coping with agitation, aggression, and sundowning in Alzheimer’s disease.
- Forbes D et al. Light therapy for improving cognition, activities of daily living, sleep, challenging behaviour, and psychiatric disturbances in dementia. Cochrane Database Syst Rev 2014.
- McCleery J, Sharpley AL. Pharmacotherapies for sleep disturbances in dementia. Cochrane Database Syst Rev 2020.
- NICE. Dementia: assessment, management and support (NG97).
Série: sintomas comportamentais e psicológicos associados à demência. Artigo 2: síndrome do entardecer.
Este texto é informativo e não substitui a avaliação médica.