Quando a noite vira dia
Sono e vigília na demência: como cuidar de quem acorda, e de quem fica acordado
São duas da manhã. Dona Lúcia está vestida, procurando a bolsa.
“Preciso sair. Já estou atrasada.”
A filha explica que ainda é noite. Leva a mãe de volta ao quarto, ajeita a coberta e tenta dormir. Pouco depois, escuta passos no corredor.
Na manhã seguinte, Dona Lúcia cochila na poltrona. A filha prepara o café pensando em como vai atravessar mais um dia.
No artigo anterior, conversamos sobre a síndrome do entardecer. Mas, para muitas famílias, a dificuldade continua depois que escurece: a noite se fragmenta, o dia fica sonolento e o descanso de todos começa a desaparecer.
“Preciso sair. Já estou atrasada.”
Quando o ritmo muda
Vigília é o período em que estamos acordados. A alternância entre sono e vigília ajuda a organizar a vida: há momentos de atividade e momentos de repouso.
A demência pode desorganizar esse ritmo. A pessoa pode demorar a adormecer, acordar várias vezes, despertar muito cedo ou dormir boa parte do dia. Algumas famílias dizem que ela “trocou o dia pela noite”.
A síndrome do entardecer descreve a piora da confusão ou da inquietação no fim da tarde e à noite. As alterações do sono são mais amplas: podem ocorrer com ou sem esse padrão.
O sono importa para a saúde do cérebro, como vimos em Enquanto você dorme, o cérebro faz a faxina. Mas isso não é motivo para culpa: uma noite ruim não define o rumo da doença, e o foco aqui é a noite possível.
Nem tudo é explicado pela demência
Antes de procurar algo para “fazer dormir”, entenda o que interrompe o descanso.
Antes de procurar algo para “fazer dormir”, precisamos entender o que está interrompendo o descanso.
Dor, falta de ar, refluxo, necessidade frequente de urinar, ansiedade e efeitos de medicamentos podem participar. Dor pode aparecer como agitação ou vontade de sair da cama. A bexiga cheia no escuro causa susto e confusão. Frio, calor e sede também contam. A noite também pode ser prejudicada por um quarto desconfortável ou por uma rotina com pouca atividade durante o dia.
Conte ao médico se houver ronco forte, pausas na respiração ou despertares com engasgos. Esses sinais podem indicar apneia do sono.
Também merecem avaliação os episódios em que a pessoa parece encenar sonhos: grita, dá socos, chuta ou cai da cama enquanto dorme. Há distúrbios específicos do sono que precisam ser investigados, e esse sinal é útil para o médico definir o tipo de demência.
A noite começa a ser cuidada de manhã
A noite começa a ser cuidada de manhã, com luz natural e movimento.
Pode parecer estranho falar da manhã quando a queixa acontece às duas da madrugada. Mas o organismo precisa de sinais que ajudem a distinguir os momentos do dia.
Abra as cortinas. Favoreça luz natural pela manhã, em um local confortável. Mantenha horários relativamente regulares para acordar, comer e descansar.
Ofereça movimento e atividades possíveis: caminhar acompanhado, ajudar numa tarefa simples ou participar de algo de que a pessoa goste. Ajuste ao estado de saúde e às capacidades dela.
Não é preciso preencher cada minuto. A ideia é criar um dia com alguma estrutura, participação e contato com o ambiente. As diretrizes recomendam justamente isso: um conjunto de medidas, e não uma só, que reúna orientações sobre o sono, luz do dia, exercício e atividades que façam sentido para a pessoa.
E os cochilos?
Um repouso breve e mais cedo costuma atrapalhar menos a noite.
Depois de uma noite difícil, é compreensível que a pessoa esteja cansada. Forçá-la a ficar acordada o dia inteiro pode aumentar o desconforto.
Observe se cochilos longos ou próximos da noite estão dificultando o sono. Quando necessário, prefira um repouso breve mais cedo, adaptado à pessoa.
Se ela passa a dormir muito mais que o habitual, fica difícil de despertar ou está excessivamente sonolenta depois de uma mudança de medicamento, procure orientação.
Prepare uma chegada tranquila à noite
Quarto escuro e silencioso, caminho livre e uma luz baixa até o banheiro.
No fim do dia, reduza televisão alta, discussões e atividades que costumam provocar inquietação. Evite oferecer café ou outras bebidas com cafeína à tarde e à noite. Álcool não deve ser usado como recurso para dormir.
Mantenha o quarto confortável: escuro, silencioso e com temperatura agradável. Confira necessidades de higiene, banheiro e alívio de desconfortos. Uma sequência familiar (banheiro, roupa de dormir, música tranquila) pode tornar esse momento mais previsível.
Não reduza líquidos de forma indiscriminada para evitar idas ao banheiro. Se os despertares para urinar são frequentes, converse com a equipe sobre a causa e sobre como distribuir a ingestão ao longo do dia.
Deixe o caminho até o banheiro livre de obstáculos, sem tapetes soltos, com uma luz baixa e suave, de preferência com sensor, e não com a luz forte do teto, que desperta de vez.
Quando a pessoa acorda de madrugada
Voz baixa, frases curtas e um toque suave: sem discutir sobre o relógio.
Primeiro, aproxime-se com calma e procure entender o que ela precisa. Pode ser o banheiro, uma posição mais confortável ou a segurança de perceber alguém conhecido por perto.
Use frases curtas, voz baixa e pausada:
“Ainda é noite. Estou aqui com a senhora.”
Se ela diz que precisa trabalhar ou buscar os filhos, não discuta nem corrija. Acolha a preocupação:
“Está tudo resolvido por hoje. A senhora pode descansar, eu estou aqui.”
Um toque suave na mão ou no ombro, se ela aceitar, costuma tranquilizar mais do que uma explicação longa. Evite transformar a madrugada numa discussão sobre o relógio. Se não conseguir voltar a dormir, uma atividade tranquila e acompanhada pode ajudar até que o sono retorne.
Se houver risco de sair de casa, planeje supervisão e medidas de segurança que preservem a possibilidade de saída em uma emergência. Amarrar a pessoa ou prendê-la na cama pode causar lesões. Se ela encena sonhos e corre risco de cair da cama, deixe-a baixa, sem objetos duros por perto, e converse com o médico.
“Não tem um remédio para isso?”
Essa pergunta muitas vezes vem de alguém que já está no limite do cansaço.
Medicamentos podem ter lugar em situações selecionadas, mas precisam de avaliação individual. O horário dos remédios que a pessoa já usa também deve entrar na revisão.
Os calmantes e remédios para dormir (Rivotril, Valium, Dienpax, Lorax, Lexotan, Frontal, Stilnox) não produzem um sono igual ao natural: causam sedação, e em idosos com demência costumam aumentar confusão, quedas e sonolência no dia seguinte. Se a pessoa já usa há tempo, não suspenda de repente: a retirada brusca também piora o sono e a agitação. A redução deve ser combinada com o médico.
Melatonina não é uma solução universal. A diretriz britânica NICE recomenda não oferecê-la para tratar insônia na doença de Alzheimer, e uma revisão da Cochrane encontrou pouco ou nenhum efeito sobre o sono na demência. Isso não equivale a dizer que ela nunca tenha indicação em outros distúrbios do sono. Por ser vendida sem receita, vale conversar com o médico antes de começar.
Há outras opções que o médico pode considerar em casos selecionados, sempre com dose baixa, objetivo definido e reavaliação. Elas também têm riscos, e a evidência é limitada. Veja o artigo 1 para os cuidados com antipsicóticos.
Não acrescente, aumente ou interrompa medicamentos por conta própria. O objetivo do tratamento é melhorar o descanso e a segurança, com acompanhamento do benefício e dos efeitos indesejados.
Quando procurar ajuda rapidamente
Uma mudança súbita no sono acompanhada de confusão nova, agitação muito diferente do habitual ou sonolência incomum precisa de avaliação rápida. Pode haver uma doença aguda, inclusive delirium.
Procure atendimento de emergência (SAMU 192 ou a ambulância do seu serviço de saúde/plano, cujo número costuma estar na carteirinha) se houver dificuldade para despertar, falta de ar importante, sinais de AVC ou perigo imediato.
Leve a noite para a consulta
Alguns dias de anotações mostram o padrão do sono ao médico.
Durante alguns dias, anote os horários aproximados de dormir e acordar, os cochilos, os despertares e o que aconteceu em cada um. Inclua mudanças recentes de medicamentos, roncos e sinais de dor.
O material Como tenho dormido? pode ajudar a organizar essas informações, com apoio de quem acompanha a rotina, e o roteiro da noite, em uma página, serve para deixar na geladeira.
E quem cuida?
Dormir mal por semanas desgasta o humor, a paciência e a saúde de qualquer pessoa. Quem cuida da noite também precisa dormir.
Converse com a família e com a equipe sobre revezamento: combine noites fixas em que outra pessoa assume, para que quem cuida tenha períodos reais de descanso. Se for seguro, um monitor de áudio ou um sensor no quarto da pessoa permite que o cuidador durma no próprio quarto, sem ficar em alerta o tempo todo. Se possível, avise a pessoa e respeite a privacidade dela. A ABRAz tem grupos de apoio para cuidadores em várias cidades.
Um café com o doutor
Quem passa a madrugada cuidando também precisa dormir.
Quem passa a madrugada cuidando também precisa dormir.
Converse com a família e com a equipe sobre revezamento, ajuda disponível e períodos reais de descanso. Uma pessoa sozinha pode não conseguir sustentar todas as noites.
Às vezes, a melhora vem aos poucos: um despertar a menos, uma causa de desconforto tratada, algumas horas de repouso protegidas para quem cuida.
O plano precisa olhar para os dois lados da noite: quem acorda sem entender o horário e quem se levanta para ajudar.
Fontes
- National Institute on Aging. Managing sleep problems in Alzheimer’s disease.
- Alzheimer’s Association. Treatments for sleep changes.
- Alzheimer’s Society. Sleep problems and treatments for people with dementia.
- NICE. Dementia: assessment, management and support (NG97): recomendações 1.5.27 (melatonina) e 1.5.28 (manejo do sono).
- NICE. Delirium: prevention, diagnosis and management (CG103).
- McCleery J, Sharpley AL. Pharmacotherapies for sleep disturbances in dementia. Cochrane Database Syst Rev 2020.
- MedlinePlus. Dementia: behavior and sleep problems.
Série: sintomas comportamentais e psicológicos associados à demência. Artigo 3: sono e vigília.
Este texto é informativo e não substitui a avaliação médica.