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Quando a vontade some

Apatia, tristeza e ansiedade na demência: como reconhecer cada uma e o que ajuda em casa

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Dr. Fausto Azambuja · 8 min de leitura · 10 de outubro de 2026

Seu Antônio foi marceneiro por quarenta anos. Hoje passa as tardes na poltrona, diante da televisão desligada, com as mãos paradas no colo. A oficina, no fundo do quintal, está do jeito que ele deixou.

— Antônio, vamos dar uma volta?

— Pra quê?

Marlene, a esposa, já tentou de tudo: convidou, insistiu, perdeu a paciência. “Você não faz nada o dia inteiro.” Ele não discute. Também não reclama de nada. Só que, quando ela vai ao mercado, ele a segue pela casa até a porta e pergunta, três vezes: “Que horas você volta?”

Marlene está convencida de que ele ficou preguiçoso. E, às vezes, de que ele faz isso para chamar atenção.

Idoso sentado na poltrona diante da televisão desligada, com as mãos no colo; a esposa o observa da porta, preocupada. “Pra quê?”

Não é preguiça, e não é manha. O que Marlene está vendo são três sintomas diferentes que costumam andar juntos na demência, e cada um pede um tipo de cuidado.

Três coisas que parecem uma só

O que se vêO que a pessoa sente
ApatiaNão começa nada, não se interessa, passa horas paradaPouca ou nenhuma tristeza; simplesmente “não tem vontade”
DepressãoTristeza, choro, irritação, “sou um peso”, sono e apetite alteradosDesânimo e desesperança de verdade
AnsiedadeSegue o cuidador pela casa, pergunta a mesma coisa, inquietação, medo de ficar sozinhoMedo e insegurança, muitas vezes sem saber de quê

A apatia é um dos sintomas mais comuns da demência: ela mexe nos circuitos cerebrais que dão o “empurrão” para começar as coisas. Quem tem apatia raramente está triste; está desligado. Já a depressão na demência costuma ser diferente da que conhecemos: aparece mais como irritabilidade, recusa, queixas de dor ou de cansaço do que como tristeza declarada. E a ansiedade é o medo de quem já não consegue prever o que vai acontecer: o cuidador vira o ponto de segurança.

Os três podem coexistir, e distinguir é trabalho do médico. Mas, em casa, saber qual deles domina ajuda a escolher o que fazer.

Três cenas lado a lado: o idoso parado diante da janela, o idoso de cabeça baixa com a mão no rosto, o idoso segurando a manga da esposa que se prepara para sair. Apatia, tristeza e ansiedade: três sintomas que costumam andar juntos.

Antes de tudo: o que mudou, e quando?

Duas perguntas antes de qualquer conclusão.

Foi de repente? Se a pessoa ficou quieta, sonolenta e desinteressada em horas ou poucos dias, pode ser um delirium de apresentação “calma” (o tipo hipoativo), que facilmente passa por tristeza ou cansaço. É uma doença do corpo pedindo socorro e merece atendimento rápido. Veja os sinais de alerta no idoso que não devem esperar.

Tem alguma causa tratável por trás? Muita “apatia” e muita “depressão” melhoram quando se corrige:

  • dor que a pessoa não consegue descrever;
  • anemia, tireoide preguiçosa, falta de vitamina B12;
  • remédio novo, dose trocada ou calmantes (Rivotril, Lorax, Valium);
  • apneia do sono e noites mal dormidas (veja Quando a noite vira dia);
  • perda de audição ou de visão, que isola a pessoa sem ninguém notar;
  • luto, mudança de casa, internação, perda de rotina.

Mesa de cabeceira com óculos, aparelho de audição, caixa de remédios, caderno com lápis e um copo de água, sob luz de manhã. Antes de concluir, procure o que pode ser tratado.

Apatia: convide, não cobre

Quem tem apatia não escolhe ficar parado. A cobrança (“você não faz nada!”) só produz culpa, e a culpa não acende o motor. O que costuma funcionar:

  • Comece junto. O difícil não é continuar, é começar. Sente ao lado, pegue o primeiro passo, e a pessoa muitas vezes segue sozinha.
  • Passos pequenos. Em vez de “vamos arrumar a oficina”, “pega aqui esse pedaço de lixa”.
  • Atividade com sentido na história da pessoa. Culinária para quem cozinhou a vida inteira, plantas para quem gostava de jardim, serrar e lixar para o marceneiro. O que importou um dia ainda acende alguma coisa.
  • Horário fixo. A rotina faz o trabalho que a iniciativa já não faz: o café, a caminhada, a música, sempre no mesmo horário.
  • Luz do dia e movimento. Dez minutos de sol e de caminhada ajudam o humor e o sono.
  • Companhia. Uma visita curta e previsível vale mais do que uma festa.

Evite o excesso: encher o dia de atividades cansa e piora a ansiedade. Uma coisa por vez.

Idoso e esposa lado a lado na bancada da oficina; ele lixa um pedaço de madeira enquanto ela segura o bloco, com a luz da tarde entrando pela porta. O difícil não é continuar, é começar. Comece junto.

Depressão: os sinais que passam despercebidos

Na demência, a depressão raramente se anuncia com “estou triste”. Fique atento a:

  • irritação nova, recusa de banho ou de comida;
  • choro fácil, ou o contrário, nenhuma expressão;
  • sono e apetite muito diferentes do habitual, perda de peso;
  • falas como “sou um peso”, “melhor eu não estar aqui”;
  • queixas de dor ou de mal-estar sem causa clara.

Se a pessoa falar em morrer, em desaparecer ou em se machucar, leve a sério, sempre. Não deixe a pessoa sozinha, converse com calma, sem discutir nem minimizar, e procure o médico no mesmo dia. Se houver risco imediato: SAMU 192 ou ambulância particular: ______________________.

Nas fases leves da demência, o GDS-15 ajuda a rastrear sintomas depressivos. Em fases mais avançadas, o médico usa escalas respondidas pelo cuidador. Em qualquer fase, o resultado é um ponto de partida para a consulta, não um diagnóstico.

Ansiedade: o cuidador vira a âncora

Quem segue você pela casa e pergunta “que horas você volta?” não está testando sua paciência. Está com medo. A memória falhou, o tempo perdeu forma, e você é a única coisa que dá chão. O que ajuda:

  • Agenda visível. Um quadro simples, com desenhos e poucas palavras, mostrando o que vem agora e o que vem depois. A pessoa consulta o quadro em vez de perguntar a você.
  • Avisos curtos, no momento certo. “Vou ao mercado. Volto antes do almoço.” Evite avisar com horas de antecedência, o que só aumenta a espera aflita.
  • Uma resposta curta e calma, sempre igual. Não adianta explicar de novo; “volto às cinco, e o jantar é aqui” repetido com carinho tranquiliza mais do que um argumento.
  • Algo que a pessoa possa fazer enquanto você está fora: uma tarefa simples, uma música, uma foto.
  • Menos estímulo. Barulho, visita demais, pressa: tudo piora. E cafeína, só de manhã.
  • Nada de “você já me perguntou isso”. Isso machuca e não resolve.

Parede da cozinha com um quadro de rotina feito de desenhos simples (xícara, sapato, prato, poltrona) e um relógio; a esposa, na porta, sai com a bolsa, e o marido olha para o quadro com calma. Um quadro com desenhos mostra o que vem agora, e a pergunta repetida se acalma.

E o remédio?

As medidas acima vêm primeiro e continuam o tempo todo, com ou sem remédio. Sobre os remédios:

  • Antidepressivos (como sertralina e escitalopram) podem ser tentados quando a depressão é intensa ou persistente. Mas, na demência, a evidência de benefício é mais fraca do que em quem não tem demência, e os efeitos colaterais (queda de sódio, tontura, quedas, sangramento) pedem acompanhamento. A decisão é individual.
  • Evite calmantes do tipo Rivotril, Lorax e Valium para ansiedade: pioram a confusão, aumentam as quedas e podem agravar a própria apatia.
  • Antidepressivos antigos (como amitriptilina) costumam ser mal tolerados nessa fase.
  • Para a apatia, a base é não farmacológica. O médico pode avaliar se o tratamento da própria demência está bem ajustado.

Nunca suspenda um remédio de uma vez, por conta própria. E se o humor mudou depois de um remédio novo, conte ao médico: veja Quando o remédio começa a fazer mal.

E quem cuida?

Cuidar de alguém que parou de querer, e que não consegue ficar longe de você, cansa de um jeito que quase ninguém conta. Se você sente que está se apagando junto, procure ajuda também para você. Leia Quem cuida também precisa ser cuidado e, se quiser medir o peso, a Escala de Zarit está no Cognisa.

Esposa sentada sozinha nos degraus dos fundos de casa, de xale, olhando para o quintal ao fim da tarde. Quem cuida de quem não quer nada também precisa de ajuda.

O que levar à consulta

Anote em poucas linhas:

  1. Quando mudou: de repente ou aos poucos?
  2. O que a pessoa deixou de fazer (e o que ainda faz com prazer).
  3. Sono, apetite e peso nas últimas semanas.
  4. Falas de tristeza, de culpa ou de morte.
  5. Se segue você pela casa ou tem medo de ficar sozinha.
  6. Remédios novos ou trocados.

O NPI-Q reúne humor, apatia e ansiedade em poucos minutos e pode ser preenchido em casa. A página Atena, do Cognisa, traz mais materiais sobre cognição e comportamento.

Para a geladeira: um checklist de uma página (PDF) com o essencial deste texto.

De volta à oficina

Marlene não cobrou. Naquela tarde, levou um pedaço de madeira e um bloco de lixa até a oficina, sentou ao lado do marido e disse: “Me ajuda com esse aqui?”

Ele olhou, hesitou, pegou a lixa. Lixou dez minutos. Não disse nada. Quando terminou, passou a mão na superfície, como fazia antes, e sorriu, quase sem perceber.

No dia seguinte, a poltrona de novo. Mas Marlene já sabia que a vontade não tinha sumido de vez: estava esperando alguém começar junto.

Série: sintomas comportamentais e psicológicos associados à demência. Artigo 5: apatia, depressão e ansiedade.

Este texto é informativo e não substitui a avaliação médica.