Quando ele vê o que ninguém vê
Delírios e alucinações na demência: o que dizer, o que fazer e quando o remédio entra
Dona Lourdes abre a gaveta da cozinha pela terceira vez em uma hora. A bolsa não está lá. Ela se vira para a filha com um olhar que a filha nunca tinha visto: não é confusão, é acusação.
— Alguém pegou meu dinheiro. Só pode ter sido a moça que vem limpar a casa.
A moça trabalha ali há onze anos. A bolsa está no armário do quarto, onde a própria dona Lourdes a guardou ontem à noite. A filha vai buscar e mostra. Em vez de alívio, vem a resposta que gela:
— Então você guardou lá para eu não achar.
Se essa cena lhe é familiar, comece por uma coisa: não é teimosia, não é maldade e não é mentira. Para quem vive isso, a bolsa sumiu de verdade, e o medo também é de verdade. O resto deste texto é sobre como ficar ao lado dessa pessoa sem entrar na briga.
“Alguém pegou meu dinheiro.”
Delírio e alucinação: qual é qual
Delírio é uma crença falsa e firme, que não muda nem diante de provas. Na demência, ele quase sempre nasce de uma memória que falha: a pessoa guarda o objeto, esquece que guardou, e o cérebro preenche o buraco com a explicação mais assustadora, “alguém pegou”. Os mais comuns:
- “Estão me roubando.”
- “Meu marido me trai.”
- “Esta não é a minha casa.”
- “Você não é minha filha; é uma impostora.”
- “Estão pondo veneno na comida.”
Alucinação é ver, ouvir ou sentir o que não existe: pessoas no jardim, crianças na sala, animais, vozes. As visuais são bem mais comuns que as auditivas.
Os estudos variam, mas os delírios aparecem, em algum momento, em cerca de um terço das pessoas com Alzheimer. As alucinações são menos frequentes, exceto em um tipo específico, a demência com corpos de Lewy, em que costumam surgir cedo e fazem parte do quadro.
Antes de tudo: começou de repente?
Esta é a pergunta que mais importa, e a primeira que o médico vai fazer. Se o delírio ou a alucinação apareceu em horas ou em poucos dias, a pessoa está mais sonolenta ou mais agitada que o habitual, ou o quadro oscila ao longo do dia, o problema pode não ser a demência, e sim um delirium: uma confusão aguda, causada por uma doença do corpo. É uma situação que merece atendimento rápido. Se você ainda não leu, vale conhecer os sinais de alerta no idoso que não devem esperar.
As causas mais frequentes, e que têm tratamento:
- infecção (urina, pulmão) e desidratação;
- intestino preso e dor não percebida;
- remédio novo, dose trocada ou calmantes (os “tarjas pretas” do tipo Rivotril, Lorax, Valium), além de alguns remédios de bexiga e de Parkinson;
- óculos ou aparelho de ouvido esquecidos, catarata;
- noites mal dormidas, internação recente.
Tratar a causa muitas vezes faz o delírio desaparecer. Por isso, o primeiro passo nunca é discutir; é investigar.
Antes de discutir, investigue: muitas causas têm tratamento.
Delírios: o que dizer, caso a caso
“Roubaram minhas coisas.” É o campeão. Não prove nem acuse. Diga “vamos procurar juntos” e procure de verdade. Ajuda ter uma bolsa reserva: uma bolsa ou carteira com algumas notas pequenas e objetos sem importância, que fica à vista e pode “aparecer” com facilidade. Mantenha duplicatas do que mais some: chaves, óculos, controle remoto.
“Meu marido me trai.” Não negue e não se justifique. Responda ao sentimento: “Você está com saudade dele? Conta como vocês se conheceram.” O ciúme costuma esconder medo de abandono.
“Quero ir para casa” (estando em casa). Quase nunca é sobre o endereço: é sobre sentir-se segura. Pergunte “como era a sua casa?”, mostre fotos, ofereça um chá. Argumentar com “mas você mora aqui há 40 anos” costuma piorar.
“Você não é minha filha.” Não leve para o lado pessoal e não faça teste de memória. Apresente-se pelo nome, sempre com voz calma: “Oi, mãe, sou a Ana.” Muitas vezes a voz e o gesto reconhecem o que os olhos já não reconhecem.
“Estão me envenenando.” A pessoa recusa comida ou remédio. Ofereça a comida na embalagem original, coma junto, deixe que ela escolha e abra. Avise o médico da recusa antes de esconder remédio na comida.
Valide o sentimento, não o fato. A presença acalma mais do que a prova.
Em vez de… experimente
| Em vez de | Experimente |
|---|---|
| “Isso não existe, você está imaginando.” | “Deve ser assustador. Estou aqui com você.” |
| “Ninguém pegou nada! Olha a bolsa aqui!” | “Vamos procurar juntos. A gente resolve.” |
| “Eu sou sua filha! Não me conhece?” | “Oi, mãe, sou eu, a Ana. Vim te ver.” |
| Discutir até convencer | Acolher o sentimento e mudar de assunto: um café, uma música, uma fotografia |
Quatro princípios resumem tudo: valide o sentimento, não o fato; nunca discuta; distraia depois; fale baixo e em frases curtas. Você não precisa inventar histórias nem concordar com a crença. Dá para ser verdadeiro sobre a emoção sem confirmar o delírio: reconheça o medo sem afirmar que houve um roubo ou que existe um invasor.
Alucinações: nem toda precisa de tratamento
A pergunta-chave é uma só: isso incomoda? Se a pessoa vê uma criança sorridente no canto da sala e fica tranquila, não há pressa em “tratar”. Observe e anote. Se há medo, agitação ou risco, é hora de agir.
- Cheque se é ilusão. Casaco no cabide na penumbra, sombra na parede, reflexo no espelho, no vidro ou na TV desligada. Luz boa, cortinas fechadas ao anoitecer e um pano sobre o espelho podem reduzir bastante o desconforto.
- Óculos e aparelho de audição em dia fazem diferença maior do que parece.
- Luz de tomada ou abajur no quarto e no corredor, à noite.
- Televisão: noticiário e filmes violentos podem virar “realidade”. Prefira programas calmos.
- Se há medo, não diga “não tem ninguém aí”. Diga “estou com você, vamos acender a luz e olhar juntos”, e olhe de verdade, com calma.
Boa luz, cortinas fechadas ao anoitecer e um pano sobre o espelho podem reduzir bastante o desconforto.
Um alerta para levar ao médico: figuras bem formadas (pessoas, animais) que aparecem cedo, oscilação importante da atenção ao longo do dia, sonolência diurna e noites em que a pessoa “age” os sonhos, gritando ou se debatendo, podem indicar demência com corpos de Lewy. Isso muda a escolha dos remédios, e é por isso que vale contar.
Segurança em casa
- Armas e facas: se há arma de fogo em casa, ela precisa sair. Facas e objetos cortantes ficam guardados.
- Portas: quem quer “ir para casa” ou fugir de um “invasor” pode sair sozinho. Fechaduras fora do alcance dos olhos, ou campainha na porta, ajudam. Qualquer adaptação precisa permitir a saída rápida em caso de incêndio ou outra emergência e não pode impedir o acesso de quem vai socorrer.
- Se houver ameaça, não enfrente. Afaste-se, saia do cômodo, peça ajuda.
- Quem trabalha em casa pode virar alvo das acusações. Converse com a pessoa e explique que não é pessoal.
- Emergência: SAMU 192 ou ambulância particular: ______________________.
Facas e objetos cortantes guardados, chaves fora da vista e trava na porta.
E o remédio?
Primeiro, investigamos as causas e adaptamos o cuidado. Quando há sofrimento intenso ou risco para a pessoa ou para os outros, o médico pode indicar medicação, sem abandonar as outras medidas.
- Antipsicóticos (Risperdal/risperidona, Seroquel/quetiapina, Haldol/haloperidol) só entram quando há sofrimento intenso ou risco para a pessoa ou para os outros. A regra é a menor dose pelo menor tempo, com reavaliação regular e tentativa de retirada assim que possível. As agências reguladoras alertam que esses remédios aumentam, em pessoas com demência, o risco de AVC, de quedas e de morte.
- Cuidado com o que sobrou na gaveta. Na demência com corpos de Lewy e na doença de Parkinson, alguns antipsicóticos, especialmente o haloperidol, podem causar reações graves. Nunca dê remédio sem receita atual.
- Os remédios da própria demência (rivastigmina/Exelon, donepezila/Eranz) às vezes diminuem as alucinações, sobretudo no Lewy.
- Calmantes como Rivotril, Lorax e Valium podem piorar confusão e alucinações. Se a pessoa os usa, converse com o médico sobre a revisão. Veja também quando o remédio começa a fazer mal.
Não suspenda nenhum remédio de uma vez, por conta própria. Muitos exigem retirada gradual.
Quando a acusação é contra você
Ser chamada de ladra pela própria mãe dói. Muito. Lembre-se de que a acusação não é sobre você; é sobre a doença. Ainda assim, a dor existe e o cansaço também. Se você sente que está no limite, leia Quem cuida também precisa ser cuidado e, se quiser medir, a Escala de Zarit está no Cognisa.
A acusação não é sobre você, mas a dor e o cansaço existem.
O que levar à consulta
Anote em poucas linhas:
- Quando começou: dias ou meses?
- O que a pessoa diz ou vê, e a que horas do dia (se piora ao fim da tarde, veja Quando o sol baixa).
- Se há medo ou agressividade.
- Remédios novos ou trocados nas últimas semanas.
- Se usa óculos e aparelho de ouvido e se estão funcionando.
O NPI-Q reúne tudo isso em poucos minutos e pode ser preenchido em casa, antes da consulta. A página Héstia, do Cognisa, traz mais materiais para quem cuida.
Para a geladeira: um checklist de uma página (PDF) com o essencial deste texto.
De volta à cozinha
A filha parou de mostrar a bolsa. Sentou ao lado da mãe e disse: “Deve ser horrível pensar que levaram as suas coisas. Vamos procurar juntas.”
Procuraram. Na terceira gaveta do armário do quarto, a bolsa. Dona Lourdes nem comemorou. Tomaram um café.
No dia seguinte, a bolsa “sumiu” de novo. Mas a filha já sabia o que fazer, porque tinha entendido o essencial: o objetivo nunca foi convencer; foi ficar do lado.
Série: sintomas comportamentais e psicológicos associados à demência. Artigo 4: delírios e alucinações.
Este texto é informativo e não substitui a avaliação médica.