Família

Quando a confusão começa de repente

Delirium: a confusão aguda que aparece em horas ou dias, como reconhecer a forma quieta e como a família ajuda.

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Dr. Fausto Azambuja · 6 min de leitura · 15 de outubro de 2026

No segundo dia de internação por pneumonia, seu Antônio, 82 anos, amanheceu diferente. Não pediu o café. Olhava para o teto, respondia “hum” e voltava a dormir. À tarde, chamou a filha pelo nome da irmã que já morreu.

A equipe disse: “Ele está tranquilo, é um paciente bom.” A família pensou: “Está cansado.” Uma prima sugeriu: “Deve ser depressão, com essa idade.” Marta, a filha, não se convenceu: “Meu pai não é assim.”

Marta estava certa. Não é cansaço, nem depressão, nem “a idade”. É delirium: uma emergência do cérebro, e quase sempre tem causa tratável.

Quarto de hospital ao entardecer: um idoso de camisa xadrez olha para a janela, sem reagir; a filha, sentada ao lado, segura a mão dele e o observa com preocupação. “Meu pai não é assim.”

Antes de tudo: mudou de repente?

Este é o sinal que importa. Se a atenção, a lucidez ou o comportamento mudaram em horas ou em poucos dias, e a pessoa está mais sonolenta, mais confusa ou mais agitada do que o normal, procure atendimento no mesmo dia. Se estiver internada, avise a equipe e use a palavra “delirium”.

Ligue para o SAMU 192 se ela não acordar direito, tiver falta de ar, febre alta com prostração ou queda com batida na cabeça. Veja também os sinais de alerta no idoso.

O que é delirium

Delirium é uma falência temporária da atenção. O cérebro não consegue manter o foco, e o pensamento fica embaralhado. Quase sempre é o sinal de que o corpo está doente: uma infecção, uma desidratação, um remédio, uma cirurgia.

Três características ajudam a reconhecer:

  • Começa rápido: horas ou dias, não meses.
  • Oscila: a pessoa pode estar quase normal de manhã e perdida à noite.
  • Tira a atenção: ela não consegue seguir uma conversa, se distrai, não acompanha uma frase simples.

Duas caras do mesmo problema

A forma agitada é a que todo mundo reconhece: a pessoa se levanta, arranca o soro, vê coisas que não existem, grita, desconfia de todos.

A forma quieta é a mais perigosa, porque ninguém se incomoda. A pessoa fica sonolenta, lenta, apática, fala pouco, come pouco. Parece “calma”, “boazinha”, “deprimida”. É a que mais passa despercebida, inclusive no hospital.

Seu Antônio tinha a forma quieta.

Como saber se é diferente do habitual

Você conhece a pessoa melhor do que qualquer profissional. Pergunte-se:

  1. Ela está menos atenta do que costuma? Perde o fio da conversa, não responde ao que você pergunta.
  2. Dia e noite se misturaram? Dorme de dia e fica desperta e perdida à noite.
  3. Mudou desde ontem ou desde a internação? Mesmo que seja “só um pouco”.
  4. Há momentos melhores e piores no mesmo dia?

Se a resposta for “sim” a qualquer uma, diga isso à equipe com estas palavras: “ele não está como é de costume.” É a frase mais útil que um familiar pode dizer.

E se a pessoa já tem demência?

Quem tem demência tem mais risco de delirium, e a família costuma achar que é “a demência piorando”. A demência piora devagar, em meses. Se piorou em dias, pense em delirium. Os dois podem coexistir, e o tratamento do delirium pode devolver parte do que parecia perdido. Leia também Quando a noite vira dia.

Quais as causas

O delirium raramente tem uma causa só. As mais comuns:

  • Infecções: urina, pulmão, pele.
  • Falta de líquido e alterações nos exames de sangue.
  • Remédios: novos, trocados, em excesso, ou suspensos de repente. Veja Quando o remédio começa a fazer mal.
  • Intestino preso, bexiga que não esvazia, dor não tratada.
  • Cirurgia e anestesia.
  • Troca de ambiente, noites mal dormidas, falta de óculos e de aparelho auditivo.
  • Álcool ou calmantes interrompidos de repente.

Bandeja de madeira sobre a mesa de cabeceira, vista de cima: óculos de aro fino, aparelho auditivo, relógio de bolso, copo com canudo, organizador semanal de remédios e um cartão em branco. Óculos, aparelho auditivo, relógio e água: o que ajuda o cérebro a se orientar.

O que a família pode fazer

A equipe trata a causa. A família ajuda o cérebro a se reorientar. Nada disso substitui o tratamento, mas faz diferença:

  • Traga os óculos e o aparelho auditivo, e confira se estão sendo usados.
  • Reoriente com calma: diga onde ela está, que dia é, quem você é. “Pai, você está no hospital. Eu sou a Marta.”
  • Relógio e calendário à vista; luz do dia pela manhã, penumbra e silêncio à noite.
  • Fique junto, ou combine revezamento. Rosto conhecido acalma.
  • Ofereça água e ajude a comer, sem forçar.
  • Incentive a sentar e andar, com ajuda e com a autorização da equipe. Ficar deitado piora.
  • Pergunte se a sonda, o cateter e o acesso ainda são necessários. Tudo que prende a pessoa aumenta a confusão.
  • Peça revisão dos remédios, em especial os que dão sono.

Filha sentada ao lado da cama, com a mão sobre a do pai, conversando com calma; ele a olha com atenção. Cortina aberta e relógio de parede à vista. Reorientar com calma: onde está, que dia é, quem eu sou.

Em vez de… experimente

Em vez deExperimente
“Pai, você não lembra? Eu acabei de falar!”“Pai, você está no hospital. Eu sou a Marta, sua filha. Está tudo bem.”
“Isso não existe, não tem ninguém aí!”“Vi que isso assustou você. Eu estou aqui com você.”
“Ele é assim mesmo, é a idade.”“Ele não está como é de costume. Quero que avaliem hoje.”
“Fica quieto, para de mexer!”“Vamos sentar aqui um pouco? Quer água?”

Quem cuida também pode se perder

Ver alguém que você ama não te reconhecer assusta, e a noite no hospital cansa. Revezem, durmam, peçam ajuda. Leia Quem cuida também precisa ser cuidado. Para o preparo da internação, veja Vou para o hospital. E agora?.

Filha sozinha numa cadeira do corredor do hospital, à noite, com um copo coral nas duas mãos, cansada e pensativa. A noite no hospital cansa quem cuida também.

Depois que passa

O delirium costuma melhorar quando a causa é tratada, mas a recuperação pode ser mais lenta do que a doença que o provocou: dias, às vezes semanas de atenção ainda frágil e sono desorganizado. Isso não é recaída nem demência instalada.

Dois cuidados depois da alta:

  • Mantenha a rotina e a reorientação em casa, como descrito em A recuperação continua em casa.
  • Converse com o médico sobre uma avaliação da memória algumas semanas depois. Quem teve delirium merece esse acompanhamento.

O que levar à consulta ou ao hospital

Anote em poucas linhas:

  1. Quando começou e se foi de repente.
  2. Como a pessoa estava antes (conversava, andava, cuidava de si?).
  3. Se piora ou melhora ao longo do dia, e como está o sono.
  4. Remédios novos, trocados ou suspensos, com a data.
  5. Febre, tosse, urina diferente, dor, intestino preso, queda recente.
  6. Se usa óculos e aparelho auditivo, e se estão com ela.

A página Atena reúne materiais sobre cérebro e cognição.

Para a geladeira ou para guardar no celular: um checklist de uma página (PDF) com o essencial deste texto.

Uma semana depois

Marta contou à médica o que tinha visto. A equipe investigou, achou uma infecção urinária e trocou um remédio que dava sono. Os óculos voltaram para o rosto do seu Antônio, e a filha passou a ficar até o fim da tarde, quando ele piorava.

Em três dias, ele já pedia o café. Em duas semanas, ainda esquecia o dia da semana e dormia mal.

Nenhum remédio devolveu o seu Antônio de uma vez. Marta o ajudou a voltar, perguntando o que importava e dizendo as palavras certas.

Este texto é informativo e não substitui a avaliação médica.