Quando a confusão começa de repente
Delirium: a confusão aguda que aparece em horas ou dias, como reconhecer a forma quieta e como a família ajuda.
No segundo dia de internação por pneumonia, seu Antônio, 82 anos, amanheceu diferente. Não pediu o café. Olhava para o teto, respondia “hum” e voltava a dormir. À tarde, chamou a filha pelo nome da irmã que já morreu.
A equipe disse: “Ele está tranquilo, é um paciente bom.” A família pensou: “Está cansado.” Uma prima sugeriu: “Deve ser depressão, com essa idade.” Marta, a filha, não se convenceu: “Meu pai não é assim.”
Marta estava certa. Não é cansaço, nem depressão, nem “a idade”. É delirium: uma emergência do cérebro, e quase sempre tem causa tratável.
“Meu pai não é assim.”
Antes de tudo: mudou de repente?
Este é o sinal que importa. Se a atenção, a lucidez ou o comportamento mudaram em horas ou em poucos dias, e a pessoa está mais sonolenta, mais confusa ou mais agitada do que o normal, procure atendimento no mesmo dia. Se estiver internada, avise a equipe e use a palavra “delirium”.
Ligue para o SAMU 192 se ela não acordar direito, tiver falta de ar, febre alta com prostração ou queda com batida na cabeça. Veja também os sinais de alerta no idoso.
O que é delirium
Delirium é uma falência temporária da atenção. O cérebro não consegue manter o foco, e o pensamento fica embaralhado. Quase sempre é o sinal de que o corpo está doente: uma infecção, uma desidratação, um remédio, uma cirurgia.
Três características ajudam a reconhecer:
- Começa rápido: horas ou dias, não meses.
- Oscila: a pessoa pode estar quase normal de manhã e perdida à noite.
- Tira a atenção: ela não consegue seguir uma conversa, se distrai, não acompanha uma frase simples.
Duas caras do mesmo problema
A forma agitada é a que todo mundo reconhece: a pessoa se levanta, arranca o soro, vê coisas que não existem, grita, desconfia de todos.
A forma quieta é a mais perigosa, porque ninguém se incomoda. A pessoa fica sonolenta, lenta, apática, fala pouco, come pouco. Parece “calma”, “boazinha”, “deprimida”. É a que mais passa despercebida, inclusive no hospital.
Seu Antônio tinha a forma quieta.
Como saber se é diferente do habitual
Você conhece a pessoa melhor do que qualquer profissional. Pergunte-se:
- Ela está menos atenta do que costuma? Perde o fio da conversa, não responde ao que você pergunta.
- Dia e noite se misturaram? Dorme de dia e fica desperta e perdida à noite.
- Mudou desde ontem ou desde a internação? Mesmo que seja “só um pouco”.
- Há momentos melhores e piores no mesmo dia?
Se a resposta for “sim” a qualquer uma, diga isso à equipe com estas palavras: “ele não está como é de costume.” É a frase mais útil que um familiar pode dizer.
E se a pessoa já tem demência?
Quem tem demência tem mais risco de delirium, e a família costuma achar que é “a demência piorando”. A demência piora devagar, em meses. Se piorou em dias, pense em delirium. Os dois podem coexistir, e o tratamento do delirium pode devolver parte do que parecia perdido. Leia também Quando a noite vira dia.
Quais as causas
O delirium raramente tem uma causa só. As mais comuns:
- Infecções: urina, pulmão, pele.
- Falta de líquido e alterações nos exames de sangue.
- Remédios: novos, trocados, em excesso, ou suspensos de repente. Veja Quando o remédio começa a fazer mal.
- Intestino preso, bexiga que não esvazia, dor não tratada.
- Cirurgia e anestesia.
- Troca de ambiente, noites mal dormidas, falta de óculos e de aparelho auditivo.
- Álcool ou calmantes interrompidos de repente.
Óculos, aparelho auditivo, relógio e água: o que ajuda o cérebro a se orientar.
O que a família pode fazer
A equipe trata a causa. A família ajuda o cérebro a se reorientar. Nada disso substitui o tratamento, mas faz diferença:
- Traga os óculos e o aparelho auditivo, e confira se estão sendo usados.
- Reoriente com calma: diga onde ela está, que dia é, quem você é. “Pai, você está no hospital. Eu sou a Marta.”
- Relógio e calendário à vista; luz do dia pela manhã, penumbra e silêncio à noite.
- Fique junto, ou combine revezamento. Rosto conhecido acalma.
- Ofereça água e ajude a comer, sem forçar.
- Incentive a sentar e andar, com ajuda e com a autorização da equipe. Ficar deitado piora.
- Pergunte se a sonda, o cateter e o acesso ainda são necessários. Tudo que prende a pessoa aumenta a confusão.
- Peça revisão dos remédios, em especial os que dão sono.
Reorientar com calma: onde está, que dia é, quem eu sou.
Em vez de… experimente
| Em vez de | Experimente |
|---|---|
| “Pai, você não lembra? Eu acabei de falar!” | “Pai, você está no hospital. Eu sou a Marta, sua filha. Está tudo bem.” |
| “Isso não existe, não tem ninguém aí!” | “Vi que isso assustou você. Eu estou aqui com você.” |
| “Ele é assim mesmo, é a idade.” | “Ele não está como é de costume. Quero que avaliem hoje.” |
| “Fica quieto, para de mexer!” | “Vamos sentar aqui um pouco? Quer água?” |
Quem cuida também pode se perder
Ver alguém que você ama não te reconhecer assusta, e a noite no hospital cansa. Revezem, durmam, peçam ajuda. Leia Quem cuida também precisa ser cuidado. Para o preparo da internação, veja Vou para o hospital. E agora?.
A noite no hospital cansa quem cuida também.
Depois que passa
O delirium costuma melhorar quando a causa é tratada, mas a recuperação pode ser mais lenta do que a doença que o provocou: dias, às vezes semanas de atenção ainda frágil e sono desorganizado. Isso não é recaída nem demência instalada.
Dois cuidados depois da alta:
- Mantenha a rotina e a reorientação em casa, como descrito em A recuperação continua em casa.
- Converse com o médico sobre uma avaliação da memória algumas semanas depois. Quem teve delirium merece esse acompanhamento.
O que levar à consulta ou ao hospital
Anote em poucas linhas:
- Quando começou e se foi de repente.
- Como a pessoa estava antes (conversava, andava, cuidava de si?).
- Se piora ou melhora ao longo do dia, e como está o sono.
- Remédios novos, trocados ou suspensos, com a data.
- Febre, tosse, urina diferente, dor, intestino preso, queda recente.
- Se usa óculos e aparelho auditivo, e se estão com ela.
A página Atena reúne materiais sobre cérebro e cognição.
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Uma semana depois
Marta contou à médica o que tinha visto. A equipe investigou, achou uma infecção urinária e trocou um remédio que dava sono. Os óculos voltaram para o rosto do seu Antônio, e a filha passou a ficar até o fim da tarde, quando ele piorava.
Em três dias, ele já pedia o café. Em duas semanas, ainda esquecia o dia da semana e dormia mal.
Nenhum remédio devolveu o seu Antônio de uma vez. Marta o ajudou a voltar, perguntando o que importava e dizendo as palavras certas.
Este texto é informativo e não substitui a avaliação médica.