Família

Vou para o hospital. E agora?

O guia prático para preparar a ida, proteger a pessoa idosa durante a internação e se organizar para a alta

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Dr. Fausto Azambuja · 11 min de leitura · 04 de outubro de 2026

“Vamos precisar internar.”

Quem já ouviu essa frase sabe o que vem depois. A cabeça acelera, alguém separa um pijama, o carregador do celular, os documentos, e a família sai de casa com a sensação de que está esquecendo alguma coisa.

Está. Quase sempre são as coisas que menos parecem importantes: os óculos, o aparelho auditivo, a dentadura, a lista de remédios e, sobretudo, a informação de como a pessoa era antes de adoecer. É isso que a equipe do hospital mais precisa e menos consegue descobrir sozinha.

Uma internação começa antes de chegar ao hospital. Para a pessoa idosa, principalmente quando existe fragilidade, algumas informações e alguns cuidados simples fazem uma diferença enorme, tanto na qualidade do tratamento quanto no que ela será capaz de fazer depois da alta. Este artigo mostra o que levar, o que contar, o que observar e o que perguntar. No final, há um guia em PDF com uma ficha para imprimir, preencher e entregar à equipe.

O hospital trata a doença, mas a internação tem riscos próprios

Ninguém interna uma pessoa idosa sem motivo, e o tratamento hospitalar salva vidas. Mas há um fato que a família raramente escuta e que muda a forma de cuidar: a própria internação pode tirar função do idoso, independentemente da doença que a motivou.

Em apenas dez dias de repouso no leito, idosos saudáveis, que caminhavam e viviam normalmente, perderam cerca de 1 kg de massa muscular nas pernas, num estudo que se tornou referência. Os músculos que seguram o corpo em pé são os primeiros a ir embora. Em outros estudos, cerca de um terço dos idosos internados por doença clínica sai do hospital com menos capacidade para as atividades básicas do que tinha antes de adoecer: andar, tomar banho, vestir-se, ir ao banheiro.

Os riscos mais comuns, além da imobilidade, são:

  • Delirium, a confusão aguda, que atinge uma parcela expressiva dos idosos internados.
  • Perda de apetite e desnutrição, porque a comida é estranha, a bandeja não é aberta, a dentadura ficou em casa.
  • Sono ruim, com luzes, alarmes e interrupções.
  • Lesões de pele nos pontos de apoio, principalmente nos calcanhares e no cóccix.
  • Quedas ao levantar sozinho, fraco e desorientado.
  • Remédios novos que confundem, deixam sonolento ou fazem cair.

A boa notícia é que boa parte disso é evitável. Estima-se que 30% a 40% dos casos de delirium podem ser prevenidos com medidas simples, e a família, presente e informada, é uma das melhores ferramentas de prevenção que um hospital tem.

Antes de sair de casa

Se a situação permitir (e, se for uma emergência, ligue 192 e peça que alguém leve estes itens depois), confira:

Documentos

  • Documento de identificação
  • Cartão do SUS ou do convênio
  • Contato do familiar ou responsável
  • Contato dos médicos que acompanham a pessoa
  • Cópia das Diretivas Antecipadas de Vontade, se existirem

Informações de saúde

  • Lista atualizada dos remédios, com dose e horário de cada um
  • Alergias
  • Principais doenças e cirurgias
  • Internações recentes importantes
  • Exames recentes importantes
  • Suplementos, vitaminas, chás e remédios sem receita. Eles também contam, e quase ninguém lembra de falar deles.

Não confie só na memória. Quando falta uma lista atualizada, uma fotografia das caixas dos remédios resolve. Se você já preencheu o guia Meu Retrato de Saúde, leve-o: ele cobre boa parte desta lista numa única folha.

O que ajuda a pessoa a funcionar

Mala aberta sobre uma cama com os itens organizados e identificados: óculos, aparelho auditivo com carregador, estojo de dentadura, lista de remédios, sapatos fechados, foto de família e relógio O que ajuda a pessoa a funcionar vai na mala, tudo identificado com o nome.

Esta é a parte mais subestimada da mala. Leve, e identifique com o nome da pessoa:

  • Óculos
  • Aparelho auditivo, com pilhas ou carregador
  • Dentadura, com um estojo identificado (é um dos objetos mais perdidos em hospitais)
  • Bengala ou andador
  • Calçado fechado e antiderrapante
  • Um objeto familiar: uma foto, um relógio pequeno

Óculos e aparelho auditivo não são detalhes. Enxergar e ouvir bem ajuda a pessoa a entender onde está, a se comunicar e a manter a autonomia, e é uma das medidas mais simples contra o delirium. A dentadura decide se a pessoa vai conseguir comer. O calçado decide se ela vai conseguir levantar sem escorregar.

A informação mais importante: como a pessoa era antes

A equipe do hospital conhece a doença de agora. Só a família conhece a pessoa de antes. E sem esse retrato, uma mudança pode passar por “normal”.

Imagine duas pessoas de 84 anos que chegam ao hospital confusas. Uma conversava normalmente até anteontem. A outra já tinha demência avançada e não reconhecia ninguém havia um ano. Para a equipe, no leito, as duas parecem iguais. Mas, no primeiro caso, a confusão é um sinal de alarme importante, e, no segundo, pode ser o estado habitual. Só quem convive sabe a diferença, e só a família pode contá-la.

Antes de ir, ou logo na chegada, anote como a pessoa era antes desta doença em cinco áreas:

  • Mobilidade: caminhava sozinha, com bengala ou andador, com ajuda, ou não caminhava.
  • Atividades do dia a dia: tomava banho, vestia-se e usava o banheiro sozinha, ou precisava de ajuda. O Índice de Katz organiza essas atividades e dá uma fotografia clara.
  • Cabeça: lúcida, com esquecimentos leves, com demência; e se já ficou confusa em outra doença ou internação.
  • Alimentação: come sozinha ou com ajuda, se usa dieta modificada, se tem dificuldade para mastigar ou engolir.
  • Urina e fezes: continente, perde urina ou fezes, usa fralda.

Na recepção do hospital, a filha entrega uma ficha com caixinhas de marcar à enfermeira, enquanto a mãe idosa, de óculos, espera sentada ao lado Entregue a ficha na admissão e peça que seja anexada ao prontuário.

No guia em PDF, esse retrato está numa ficha para levar ao hospital, que também reúne nome, contato, alergias, remédios, doenças e o que acalma a pessoa. Entregue a ficha na admissão e peça que seja anexada ao prontuário.

Para a equipe, a frase que mais ajuda é a mesma que vale em qualquer sinal de alerta: “Ele está diferente do habitual dele.” Se quiser reler o que fazer quando uma mudança aparece de repente, o artigo Sinais de Alerta no Idoso traz o mapa completo.

Durante a internação: ajude a preservar o que a pessoa ainda tem

Tratar a doença é o mais importante. Mas a internação não precisa ser o momento em que a pessoa perde o que ainda conseguia fazer. Quando a equipe permitir, a família pode proteger a função de várias maneiras simples.

Quarto de hospital tranquilo: a senhora idosa repousa na cama enquanto a filha, sentada na poltrona, segura sua mão; na mesinha, óculos e um copo de água; na parede, relógio e calendário A presença de alguém conhecido ajuda a orientar e a prevenir a confusão.

Fique com a pessoa sempre que possível. O Estatuto da Pessoa Idosa (art. 16) assegura ao idoso internado ou em observação o direito a acompanhante, e determina que a unidade de saúde proporcione as condições para sua permanência em tempo integral, segundo o critério médico. A presença de alguém conhecido ajuda a orientar, acalmar, observar mudanças e prevenir o delirium. Combine revezamentos, porque o acompanhante também precisa descansar.

Óculos, aparelho auditivo e dentadura à mão. Pergunte, todos os dias, se estão no lugar. Dentadura nas refeições, óculos e aparelho durante o dia.

Ajude a orientar. Diga o dia, o horário e onde a pessoa está, com calma e sem cobrar que ela se lembre. Deixe um relógio e um calendário à vista. À noite, luz baixa e menos barulho, e, se possível, menos interrupções que não sejam necessárias.

Sentar, levantar e caminhar. Estimule a pessoa a sair da cama, sentar para as refeições e caminhar, sempre que a equipe liberar e sempre com ajuda: o risco de queda é maior no hospital. Perguntar não custa nada.

A filha abre a tampa de um iogurte para a mãe idosa, que está sentada na cama, de óculos, diante da bandeja com sopa, pão, fruta e água Muitas vezes só falta alguém para abrir o iogurte.

Acompanhe as refeições. Veja se a bandeja foi aberta, se a pessoa enxerga o prato, se a dentadura está no lugar e se ela consegue mastigar e engolir. Avise se comer ou beber diminuiu. Um idoso pode passar dias comendo pouco simplesmente porque ninguém ajudou a abrir o iogurte.

Observe urina e intestino. Pergunte se a fralda e a sonda são mesmo necessárias. Sempre que possível, o banheiro ou a cadeira sanitária, com ajuda, são melhores do que a fralda, porque mantêm a pessoa em movimento e protegem a pele.

Pele e dor. Olhe os calcanhares e a região do cóccix. Mancha vermelha que não some deve ser comunicada. O guia Minha Pele Protegida explica o que observar. Quem não consegue dizer que sente dor pode mostrar com careta, agitação ou recusa de se mexer.

Autonomia. Deixe a pessoa fazer o que ainda consegue: comer sozinha, lavar o rosto, se vestir em parte. Fazer por ela é mais rápido, mas cobra um preço depois.

Algumas perguntas que a equipe costuma receber bem:

  • “Ela já está liberada para sentar e caminhar?”
  • “Ainda precisa da sonda (ou do acesso)?”
  • “Pode ir ao banheiro com ajuda, em vez de usar fralda?”
  • “Como está a alimentação dela hoje?”

Atenção à confusão aguda

Uma pessoa idosa que estava conversando normalmente pode, durante uma doença ou uma internação, ficar:

  • confusa, desorientada;
  • agitada;
  • excessivamente sonolenta e quieta;
  • diferente do comportamento habitual.

Essa mudança pode ser delirium, uma complicação muito comum do idoso internado e que quase sempre tem causa que pode ser encontrada e tratada: infecção, desidratação, dor, remédio, urina presa, intestino travado, falta de sono, o próprio ambiente hospitalar.

Não aceite “é da idade” nem “é a demência”. Quem tem demência tem mais risco de delirium, não está imune a ele. E lembre da forma “quieta”, em que a pessoa não se agita: fica apática, sonolenta, retraída. Ela passa despercebida, e, por isso mesmo, merece mais atenção.

O que fazer: avise a equipe na hora, diga que a pessoa está diferente do habitual e descreva o que mudou. Enquanto isso, reforce as medidas que ajudam: óculos e aparelho auditivo, orientação calma, luz do dia e noite escura, água, rosto conhecido.

Um alerta sobre sedativos: calmantes e remédios para dormir dados “para acalmar” podem piorar o delirium, sobretudo em idosos. Quando um remédio assim for prescrito, é razoável perguntar: “Para que serve, até quando será usado e quais são as alternativas?” O mesmo vale para a contenção física (amarrar a pessoa): ela costuma agravar a agitação, e muitas vezes a presença de um acompanhante resolve melhor.

Os remédios mudaram?

Durante a internação, remédios podem ser suspensos, trocados, aumentados, reduzidos, iniciados por alguns dias ou acrescentados. Isso é normal, e é uma das fontes mais frequentes de erro quando a pessoa volta para casa. Procure saber:

  • Quais remédios de casa foram mantidos?
  • Quais foram suspensos?
  • Quais novos foram iniciados?
  • Algum deles é só temporário? (Atenção especial a remédio para dormir, para ansiedade ou para agitação começado no hospital: até quando, e quem vai suspender?)
  • Como ficará a prescrição depois da alta?

Não dê remédios de casa durante a internação sem a equipe saber, inclusive chás e suplementos. E, na alta, evite manter ao mesmo tempo a receita antiga e a nova sem conferir as diferenças.

Antes da alta

Não espere chegar em casa para descobrir o que faltou perguntar. A alta é o momento em que a família mais precisa de informação, e o hospital, muitas vezes, está com pressa. Antes de sair, confira:

  • Tenho a receita atualizada, e sei quais remédios foram retirados, quais foram acrescentados e quais são as doses e os horários.
  • Tenho o resumo de alta por escrito.
  • Sei cuidar de curativos, sondas ou outros dispositivos, se houver.
  • Entendi as orientações sobre alimentação e sobre as atividades liberadas.
  • Sei se precisa de fisioterapia ou reabilitação, e de equipamentos ou adaptações em casa (cama, cadeira de banho, andador).
  • Tenho os retornos marcados, com uma consulta com quem acompanha a pessoa na primeira ou na segunda semana depois da alta. Os primeiros dias em casa são os mais delicados.
  • Sei quais exames estão pendentes e quem vai buscar o resultado.
  • Sei quais sinais indicam que devo procurar ajuda.
  • Sei quem vai cuidar nos primeiros dias em casa e como nos revezar.

Tudo isso, e o que acontece depois da porta de casa, será o tema do próximo artigo desta trilha: Voltando para Casa.

A pergunta que não pode faltar

Quando a pessoa receber alta, faça uma pergunta simples: ela voltou a ser como era antes da internação?

Compare com o retrato que você registrou. Ela caminha como antes? Levanta como antes? Come como antes? Está lúcida como antes? Consegue fazer suas atividades como antes?

Se a resposta for não, a pergunta seguinte, dirigida à equipe e ao médico que acompanha, é:

“O que precisamos fazer para recuperar o que foi perdido?”

A alta encerra a internação. Nem sempre encerra a recuperação.

O guia para levar

Preparamos o guia Vou para o Hospital. E Agora?, em PDF, para imprimir ou guardar no celular. Ele traz:

  • o que levar, com caixinhas para marcar;
  • como contar à equipe como a pessoa era antes;
  • o que observar durante a internação, a confusão aguda e os remédios;
  • a lista de conferência antes da alta;
  • e, na última página, a ficha para levar ao hospital, pronta para preencher e entregar.

Ele faz parte de uma trilha de três guias, um para cada etapa:

  • Sinais que Não Esperam, para reconhecer quando uma mudança não deve esperar. O artigo que o acompanha é Sinais de Alerta no Idoso.
  • Vou para o Hospital. E Agora?, este.
  • Voltando para Casa, para uma recuperação mais segura depois da alta, com um quadro semanal para comparar a pessoa com o que ela era antes. O artigo correspondente vem a seguir.

Alerta: atenção individual. Este texto traz orientações gerais. Cirurgias, internações em UTI, doenças avançadas e cuidados paliativos exigem orientação individual. Se existe um plano combinado com o médico para aquela pessoa (por exemplo, o desejo de não ser internada ou de não receber certos tratamentos), siga o plano, leve uma cópia e avise a equipe. Regras de acompanhante, visita e horário variam entre hospitais; na dúvida, pergunte na admissão.

Este conteúdo é educativo e não substitui as orientações da equipe responsável pelo atendimento.

Referências

O que cada fonte sustenta, e onde a evidência termina:

  1. Creditor MC. Hazards of hospitalization of the elderly. Ann Intern Med 1993;118(3):219-223. Texto clássico que descreve o declínio funcional associado à internação e seus mecanismos (imobilidade, nutrição, sono, medicamentos).
  2. Covinsky KE, Pierluissi E, Johnston CB. Hospitalization-associated disability: “She was probably able to ambulate, but I’m not sure.” JAMA 2011;306(16):1782-1793. Revisão sobre a incapacidade associada à hospitalização e como a equipe e a família podem preveni-la.
  3. Covinsky KE, Palmer RM, Fortinsky RH, et al. Loss of independence in activities of daily living in older adults hospitalized with medical illnesses: increased vulnerability with age. J Am Geriatr Soc 2003;51(4):451-458. Base para a observação de que cerca de um terço dos idosos internados por doença clínica sai com menos independência nas atividades básicas. Os percentuais variam entre estudos e populações.
  4. Kortebein P, Ferrando A, Lombeida J, Wolfe R, Evans WJ. Effect of 10 days of bed rest on skeletal muscle in healthy older adults. JAMA 2007;297(16):1772-1774. Em 12 idosos saudáveis, 10 dias de repouso no leito reduziram a síntese de proteína muscular e a massa magra das pernas (cerca de 1 kg). Estudo pequeno e com idosos saudáveis, o que o torna um cenário “ideal”: em doentes, o efeito tende a ser maior.
  5. Inouye SK, Bogardus ST Jr, Charpentier PA, et al. A multicomponent intervention to prevent delirium in hospitalized older patients. N Engl J Med 1999;340(9):669-676. Estudo que mostrou que medidas simples (orientação, sono, mobilização, óculos e aparelho auditivo, hidratação) reduziram a ocorrência de delirium.
  6. Hshieh TT, Yue J, Oh E, et al. Effectiveness of multicomponent nonpharmacological delirium interventions: a meta-analysis. JAMA Intern Med 2015;175(4):512-520. A meta-análise confirma a redução da ocorrência de delirium e de quedas com intervenções multicomponentes. O benefício para mortalidade e tempo de internação não ficou demonstrado.
  7. Inouye SK, Westendorp RGJ, Saczynski JS. Delirium in elderly people. Lancet 2014;383(9920):911-922. Revisão que descreve o delirium, suas causas, a forma hipoativa e a proporção de casos considerados evitáveis (cerca de 30% a 40%).
  8. 2023 American Geriatrics Society Beers Criteria Update Expert Panel. J Am Geriatr Soc 2023;71(7):2052-2081. Desaconselha o uso de sedativos e de alguns remédios para dormir em idosos, pelo risco de delirium e queda.
  9. Mueller SK, Sponsler KC, Kripalani S, Schnipper JL. Hospital-based medication reconciliation practices: a systematic review. Arch Intern Med 2012;172(14):1057-1069. Mostra que discrepâncias de medicamentos nas transições (admissão, alta) são frequentes, e que a conferência ativa da lista reduz erros.
  10. Brasil. Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003 (Estatuto da Pessoa Idosa), art. 16. Assegura ao idoso internado ou em observação o direito a acompanhante, com condições de permanência em tempo integral, segundo o critério médico.
  11. Hernandez AF, Greiner MA, Fonarow GC, et al. Relationship between early physician follow-up and 30-day readmission among Medicare beneficiaries hospitalized for heart failure. JAMA 2010;303(17):1716-1722. Consulta de seguimento em até 7 dias associou-se a menos reinternações em insuficiência cardíaca. Estudo observacional e em uma doença específica; a extrapolação para outros quadros é razoável, mas menos estudada.