Família

A pele também envelhece: o guia prático para proteger a pele do idoso

Banho, hidratação, umidade, pressão, pés, sol e os sinais que não podem esperar: o que a família pode fazer em casa

Dr. Fausto Azambuja · 20 min de leitura · 03 de outubro de 2026

Existe uma cena que se repete em muitas casas. A filha ajuda o pai a trocar de camisa e encontra, no antebraço, um roxo do tamanho de uma moeda que ninguém sabe de onde veio. Ou a esposa cuida do marido que passa os dias na cama e, depois de uma semana difícil, com pouca comida e pouco movimento, descobre uma mancha vermelha no calcanhar. Ou a mão de um idoso roça de leve no braço da poltrona e, de repente, um pedaço de pele se solta e o sangue aparece.

Quase todo mundo conclui a mesma coisa: “é da idade”. A fragilidade, de fato, é da idade. O machucado, na maior parte das vezes, não precisa ser. A pele é o maior órgão do corpo e a primeira barreira contra infecções, e cuidar dela é uma das formas mais simples, mais baratas e mais eficazes de evitar dor, infecção e internação.

Este guia reúne o que costumo orientar famílias no consultório. Ao longo do texto você encontra links para ferramentas gratuitas do Cognisa, escalas que ajudam a enxergar riscos que passam despercebidos, e, no final, um guia em PDF e uma avaliação simples da pele para fazer em casa.

O que muda na pele com os anos

A pele do idoso não é só uma pele com mais rugas. Ela é diferente por dentro. A camada de fora (a epiderme) se renova mais devagar e perde a gordura natural que a mantém hidratada e protegida. A camada de dentro (a derme) fica mais fina, com menos colágeno, menos elasticidade e menos vasos sanguíneos. O resultado prático é uma pele seca, fina, quase transparente, que perde o “amortecimento”, demora para cicatrizar e se machuca com muito menos esforço. Quando isso se acentua, com antebraços de “papel de seda”, roxos fáceis e pequenas cicatrizes brancas em forma de estrela, os dermatologistas falam em dermatoporose, uma espécie de insuficiência da pele, parecida com o que a osteoporose é para o osso.

Sobre essa base frágil agem cinco forças que quase sempre aparecem juntas: o ressecamento, o atrito e os pequenos traumas, a umidade, a pressão e o sol. E há o que vem de fora da pele. Corticoides (em comprimido, em pomada potente ou inalados em dose alta), anticoagulantes e antiagregantes aumentam os roxos. Diabetes e má circulação atrasam a cicatrização e escondem feridas nos pés. A desnutrição tira da pele o material de construção. E a demência faz com que a pessoa nem sempre consiga dizer que algo dói.

Por isso, proteger a pele não é uma tarefa só. É uma rotina com seis cuidados pequenos: banho sem agredir, hidratar todos os dias, proteger da umidade, observar os pontos de pressão, cuidar dos pés e reconhecer os sinais de alerta. É exatamente a estrutura do guia Minha Pele Protegida, que vamos percorrer neste texto.

O banho: menos agressão, mais cuidado

Cuidadora seca com uma toalha o antebraço de uma pessoa idosa de roupão, durante o banho, com chuveiro e frascos de sabonete ao fundo Água morna, banho curto e secagem por toques.

A primeira boa notícia é que o idoso não precisa tomar banho completo todos os dias. A água e o sabonete retiram a pouca gordura que a pele ainda tem, e quanto mais quente e demorado o banho, maior o estrago. Nos dias em que o banho completo for cansativo, ou quando a pessoa o recusa, basta limpar com um pano macio e úmido o rosto, as axilas, a região íntima e as dobras. Em dias muito quentes, um banho diário rápido é perfeitamente aceitável, desde que seja curto e que o sabonete vá só onde precisa.

Alguns pontos fazem diferença:

  • Água morna, nunca quente. Teste com a parte de dentro do punho ou do cotovelo, não com a ponta dos dedos. Quem tem diabetes, sequela de AVC, demência ou pouca sensibilidade pode não perceber que está se queimando. O mesmo vale para bolsa de água quente, almofada térmica e cobertor elétrico: no idoso, são causa frequente de queimadura.
  • Banho curto, de cinco a dez minutos.
  • Sabonete suave. Os sabonetes em barra tradicionais costumam ser alcalinos e retiram a camada protetora da pele, cujo pH natural é ácido (em torno de 5,5). Prefira sabonete líquido neutro ou “para pele sensível”, sem perfume, e use só nas áreas que realmente precisam: axilas, virilhas, dobras e pés.
  • Nada de bucha ou esponja áspera. A espuma e as mãos bastam.
  • Enxágue completo e secagem por toques, sem esfregar a toalha. Dê atenção especial às dobras e ao espaço entre os dedos dos pés, onde a umidade esquecida vira terreno de fungo.

Há também uma dimensão de relação. Quem cuida de uma pessoa com demência sabe que o banho pode virar uma batalha. Na maioria das vezes, a recusa não é teimosia: é medo. O banheiro é frio, barulhento, cheio de superfícies escorregadias, e alguém tenta tirar a roupa da pessoa sem que ela entenda por quê. Aquecer o ambiente, explicar cada passo com calma, deixar a pessoa fazer o que ainda consegue e tocar uma música que ela conhece costuma ajudar mais do que insistir.

Uma pista útil para a rotina: quanto mais ajuda a pessoa precisa no banho, maior o risco de atrito e de pequenos traumas na pele. O Índice de Katz organiza em seis atividades básicas (banho, vestir-se, higiene pessoal, transferência, continência e alimentação) o quanto de ajuda a pessoa precisa. Vale preencher e levar o resultado à consulta.

Hidratar todos os dias

Cuidadora espalha hidratante no antebraço de uma pessoa idosa, com potes de creme e toalha sobre a mesinha ao lado O hidratante depois do banho é o hábito que mais protege.

Se existe um único hábito que mais protege a pele do idoso, é este. O hidratante repõe parte da barreira que a idade levou, reduz a coceira e deixa a pele mais flexível e mais resistente a rasgos. Em um estudo randomizado feito em casas de repouso na Austrália, a aplicação de um hidratante simples, sem perfume, duas vezes ao dia nos braços e nas pernas reduziu em cerca de metade os rasgos de pele. É raro um cuidado tão barato produzir um efeito tão grande.

Quando. O melhor momento é logo depois do banho, com a pele ainda levemente úmida. Não se prenda ao cronômetro: o que importa é a regularidade. Nas áreas mais secas (pernas, antebraços, pés), uma segunda aplicação à noite faz diferença.

O que escolher. Não precisa ser caro nem “dermatológico de grife”. Procure loções ou cremes sem perfume com:

  • humectantes, que atraem água para a pele: ureia, glicerina, ácido lático;
  • oclusivos, que seguram a água dentro: vaselina (petrolato), ceramidas.

A ureia em concentração de 3% a 10% é a mais usada e ajuda também na coceira. Em pele muito rachada ou ferida, ela pode arder; comece com 3% ou use um produto com glicerina. Concentrações maiores são para calos e calcanhares espessados, não para pele fina e frágil. A vaselina simples, barata, continua sendo uma ótima aliada. Evite colônias, álcool e produtos perfumados sobre a pele seca: eles ressecam ainda mais.

Como. Com as mãos limpas, em movimentos suaves, no sentido de cima para baixo nas pernas e nos braços, sem esfregar com força. Hidratar é também um momento de olhar a pele inteira: marcas novas, vermelhidões, feridas.

E a água que se bebe? Beber líquidos ao longo do dia é importante para a saúde geral e, em dias quentes e secos, ainda mais. Mas não substitui o hidratante: a pele ressecada precisa de cuidado por fora.

Quando o problema é a coceira

A coceira (prurido) é muito comum e, na maioria das vezes, é consequência da pele seca. Ela costuma piorar à noite e no inverno seco, e leva a arranhões que viram porta de entrada para infecção. As medidas são as mesmas: banho morno, hidratante diário, unhas curtas, roupas de algodão, sabão de lavar roupa bem enxaguado, quarto fresco. Compressas frias e úmidas aliviam a crise.

Um alerta importante: os remédios mais usados contra coceira, os anti-histamínicos que dão sono (como hidroxizina e dexclorfeniramina), estão entre os que mais confundem e derrubam idosos. Os critérios internacionais para medicamentos em idosos recomendam evitá-los. Se a coceira não melhora depois de duas semanas de cuidados corretos, ou se é intensa mesmo sem a pele estar seca, vale investigar: tireoide, fígado, rins, ferro baixo, diabetes e alguns medicamentos podem causar coceira. E se a coceira é forte à noite, aparece entre os dedos e atinge mais de uma pessoa da casa ou da instituição, pense em escabiose (sarna), que precisa de tratamento específico para todos os contatos.

Pele que rasga e fica roxa

Cuidadora ajuda uma pessoa idosa a se levantar da cama e a caminhar com um andador, acompanhando o movimento Ajudar a levantar segurando pelo corpo, nunca puxando pela pele.

Os rasgos de pele (em inglês, skin tears) são os ferimentos mais comuns do idoso, e a maioria acontece nos braços e nas pernas. Um tropeço leve, o atrito de uma manga, a pulseira do cuidador, a grade da cama, a tira de esparadrapo retirada com pressa: tudo isso pode abrir a pele fina. Parecem pequenos, mas doem, demoram a cicatrizar e infectam.

Como prevenir:

  • Hidratar todos os dias (seção anterior).
  • Roupas de manga e calça compridas, de tecido macio, protegem braços e pernas.
  • Acolchoar quinas, grades da cama e braços da cadeira.
  • Manter unhas curtas, as do idoso e as de quem cuida. Retirar anéis e pulseiras antes de ajudar no banho ou na troca de roupa.
  • Ao levantar ou virar a pessoa, segurar pelo corpo e usar o lençol para deslizar. Nunca puxar pela pele ou pelo braço.
  • Iluminar bem a casa: muitos rasgos nascem de batidas em móveis no escuro.
  • Evitar esparadrapo comum sobre a pele fina. Se for preciso fixar um curativo, prefira fita de papel (micropore) ou fixe com atadura ou malha tubular, sem colar na pele. Para retirar uma fita, segure a pele com uma mão e puxe devagar, no sentido do crescimento dos pelos.

Se o rasgo aconteceu:

  1. Estanque o sangramento com uma gaze limpa e pressão suave, mantendo o membro elevado. Em quem usa anticoagulante, pode levar mais tempo.
  2. Lave com soro fisiológico ou água corrente limpa, sem esfregar.
  3. Se há um retalho de pele solto, recoloque-o delicadamente no lugar, com um cotonete ou o dedo úmido e limpo.
  4. Cubra com um curativo que não grude (gaze com vaselina ou curativo de silicone), fixado com atadura, não com fita sobre a pele frágil. Desenhe uma seta no curativo mostrando o sentido para retirá-lo.
  5. Procure avaliação de um profissional de saúde, que decide o tipo de curativo e verifica a vacina contra o tétano: o reforço é a cada dez anos, e antes disso se o ferimento é sujo ou profundo.

E os roxos?

Roxos (equimoses) nos antebraços e no dorso das mãos, depois de pequenas batidas, são muito comuns na pele fina do idoso e, em geral, inofensivos. O risco sobe com anticoagulantes, antiagregantes (como AAS) e corticoides. Nunca suspenda esses remédios por conta própria: eles protegem contra AVC e infarto. Mas procure o médico se os roxos forem grandes, aparecerem sem batida nenhuma, vierem acompanhados de sangramento no nariz ou na gengiva, de fezes escuras ou de cansaço novo.

Um ponto delicado, mas importante: roxos em lugares incomuns (rosto, pescoço, parte interna dos braços, costas, região íntima) ou explicações que não combinam com a lesão merecem uma conversa cuidadosa com o médico. Na maioria das vezes são quedas não relatadas, mas, infelizmente, também podem ser sinal de maus-tratos. Perguntar e relatar é papel de todos.

Umidade: fralda, suor e dobras

Bancada com fraldas dobradas, bacia com água, sabonete líquido, pote de pomada de barreira e toalhas limpas Trocar rápido, limpar com delicadeza e proteger com uma barreira.

A pele que fica molhada por muito tempo, com urina, fezes ou suor, amolece e irrita. A urina e, principalmente, as fezes alteram o pH da pele, e as enzimas das fezes funcionam como um “ácido” suave sobre uma pele que já está frágil. O resultado é a dermatite associada à incontinência, que começa como vermelhidão e ardência na região íntima, nas nádegas e nas dobras, e pode evoluir para bolhas e pele “em carne viva”. Muitas vezes o idoso não consegue dizer que está doendo. A agitação e o desconforto na hora da troca são pistas.

Como prevenir:

  • Trocar rápido, sem esperar. A fralda molhada ou suja não deve ficar em contato com a pele mais tempo que o necessário.
  • Limpar com delicadeza: água morna e pano macio, ou lenço umedecido sem álcool e sem perfume. Se usar sabonete, que seja líquido e neutro. Sem esfregar.
  • Secar por toques.
  • Passar uma barreira protetora em camada fina: pomada com óxido de zinco, dimeticone ou vaselina. Não é preciso remover tudo a cada troca, e raspar a pomada machuca. Limpe o excesso e reaplique.
  • Tamanho e qualidade certos de fralda. Evite empilhar várias camadas de forro, que seguram umidade.
  • Fralda é recurso, não rotina. Quem ainda controla total ou parcialmente deve ser levado ao banheiro em horários regulares. E a incontinência em si merece investigação e tratamento: nem sempre ela é “da idade”.

Se a vermelhidão ganha pequenas bolinhas isoladas ao redor, placas esbranquiçadas ou mau cheiro, pode haver infecção por fungo (candidíase), que precisa de remédio prescrito. Pomada de barreira sozinha não resolve.

As dobras da pele

Axilas, embaixo das mamas, pregas da barriga e virilhas acumulam calor e umidade, principalmente em pessoas com excesso de peso. Mantenha-as limpas e bem secas. Em pessoas com dobras profundas, uma gaze fina ou um pano de algodão seco dentro da prega ajuda a evitar o atrito pele com pele. Evite talco, que empedra e irrita. Vermelhidão, mau cheiro ou rachadura no fundo da dobra indicam infecção: avise o médico.

Pressão: da mancha vermelha à ferida

A lesão por pressão, também chamada escara ou “ferida de cama”, é a mais temida. Ela nasce quando uma área da pele fica comprimida por tempo demais entre o osso e uma superfície (cama, cadeira, uma sonda, até os óculos de oxigênio) e deixa de receber sangue. O risco é maior em quem fica muito tempo na cama ou na cadeira, em quem sente pouco, em quem está desnutrido, com a pele úmida ou sofrendo atrito. É comum que as primeiras lesões se formem em poucas horas de maca no pronto-socorro ou de uma internação.

Onde olhar: o cóccix e a região acima das nádegas, os calcanhares, os quadris (as laterais), os cotovelos, os tornozelos, a parte de trás da cabeça e as orelhas, e qualquer ponto sob um dispositivo (sonda, óculos de oxigênio, meia elástica, colar).

Pontos de apoio onde a pressão se concentra: deitado de lado (cabeça, ombro, quadril, joelho e tornozelo) e sentado em cadeira de rodas (nádegas e calcanhar) Onde a pressão se concentra: deitado de lado e na cadeira de rodas.

Como ela começa

O primeiro sinal é uma mancha vermelha que não some quando se tira a pressão. Um teste simples: aperte a área com a ponta do dedo por alguns segundos e solte. Se a pele fica branca e logo volta ao normal, é uma vermelhidão comum. Se continua vermelha, é sinal de alerta. Em peles mais escuras, a vermelhidão pode não ser visível. Procure mudança de temperatura (mais quente ou mais fria que ao redor), de textura (endurecida ou “esponjosa”), inchaço, dor, ou um tom arroxeado ou mais escuro.

Depois, podem surgir bolha ou ferida rasa e, em seguida, uma ferida funda, que chega a músculo e osso. O que se vê na superfície costuma ser só a ponta do problema, e o dano pode evoluir em dias. Por isso a prevenção e o olhar diário são tão importantes.

Como prevenir

Pessoa idosa deitada de lado na cama, com travesseiros nas costas, entre os joelhos e sob as pernas para aliviar a pressão De lado, com travesseiros para aliviar os pontos de apoio.

  • Mudar de posição. A regra prática é a cada duas horas na cama e a cada uma hora na cadeira, para quem não consegue se mexer sozinho. Na cama, o ideal é deitar de lado inclinado cerca de 30 graus, com travesseiros nas costas e entre os joelhos, evitando deitar direto sobre o osso do quadril. Quem consegue, deve ser estimulado a se inclinar de um lado para o outro com frequência na cadeira. Um estudo em casas de repouso mostrou que, com colchão de espuma de boa qualidade, virar a cada duas, três ou quatro horas deu resultados parecidos. Ou seja, o intervalo ideal depende do colchão e do risco de cada pessoa, e o médico ou a enfermagem podem ajustá-lo. O que não pode é passar horas sem mudar de posição.
  • Colchão e almofada adequados. Espuma de alta densidade ou colchão de pressão alternada para quem tem risco alto. Os colchões baratos tipo “caixa de ovo” costumam oferecer pouca proteção. Na cadeira, use almofada apropriada e evite boias de borracha ou “roscas”, que concentram a pressão ao redor.
  • Calcanhares flutuando. Um travesseiro sob as panturrilhas deixa os calcanhares livres, sem apoiar no colchão.
  • Cabeceira baixa. Mantenha a cabeceira elevada o mínimo necessário (até cerca de 30 graus), subindo mais só nas refeições. A cabeceira alta faz o corpo escorregar e arrastar a pele, o que chamamos de cisalhamento.
  • Transferir sem arrastar. Levante o corpo, não o deslize pelo lençol.
  • Pele limpa, seca e hidratada, sem excesso de umidade.
  • Nunca massagear a área vermelha e nunca passar álcool. A massagem piora o dano em tecido já comprometido. O que ajuda é tirar a pressão do local.
  • Olhar todos os dias, na hora do banho ou da troca, com boa luz. Peça ajuda para ver costas e região do cóccix. Uma foto no celular, sempre no mesmo ângulo, ajuda a acompanhar a evolução e a mostrar ao médico.

Escalas que ajudam a enxergar o risco

Os profissionais de saúde estimam o risco de lesão por pressão com a Escala de Braden, que avalia seis aspectos: percepção sensorial, umidade, atividade, mobilidade, nutrição e atrito/cisalhamento. O formulário do Cognisa é pensado para o profissional, mas a família que entende a lógica consegue conversar muito melhor na consulta e identificar o que pode ser mudado em casa.

O risco, aliás, costuma começar bem antes da cama. A perda gradual da autonomia nas atividades básicas (Katz) e nas atividades instrumentais como compras, remédios e finanças (Lawton) costuma anunciar fragilidade. E músculo fraco leva à imobilidade: o SARC-F é um rastreio rápido de sarcopenia, a perda de massa e força muscular.

Os pés: o ponto cego

Cuidadora ajoelhada inspeciona o calcanhar de uma pessoa idosa sentada na poltrona, com o pé apoiado em um pufe e iluminado por uma lanterna Olhar a sola e os calcanhares todos os dias, com boa luz.

Os pés são a parte mais ressecada, mais esquecida e, em quem tem diabetes ou má circulação, a mais perigosa. Rachaduras, frieira, calos e feridas pequenas passam despercebidas, principalmente em quem tem pouca sensibilidade (a pessoa pisa em algo e não sente) ou enxerga mal.

Cuidados diários:

  • Olhar os pés todos os dias, incluindo a sola e o espaço entre os dedos, com um espelho ou com ajuda. Procure bolhas, rachaduras, vermelhidão, manchas, feridas e unhas encravadas.
  • Lavar, secar bem entre os dedos e hidratar (menos entre os dedos). Os calcanhares costumam aceitar bem uma ureia de 10%.
  • Unhas cortadas retas, não arredondadas, sem cortar fundo nos cantos. Em quem tem diabetes ou unhas muito grossas, o corte é melhor com profissional.
  • Calos: não cortar em casa. Também evite lâminas, “esmerilhadores” e emplastros de ácido, que podem abrir feridas.
  • Calçado fechado, macio e firme, com espaço para os dedos, sem costuras internas, com solado antiderrapante. Compre à tarde, quando os pés estão mais inchados. Chinelo de dedo é um erro comum: expõe o pé a batidas e favorece tropeços.
  • Meias de algodão, sem elástico apertado, trocadas todos os dias.
  • Nunca andar descalço, nem dentro de casa, em quem tem diabetes ou pouca sensibilidade. Olhe dentro do sapato antes de calçar.

Frieira e fungos são muito comuns. Pele branca, úmida, descamando e coçando entre os dedos pede antifúngico e, principalmente, secagem cuidadosa. Unhas grossas e amareladas (micose de unha) merecem tratamento quando causam dor, risco de ferida ou em quem tem diabetes.

Pés e tornozelos inchados também pedem atenção: a pele esticada e com circulação ruim fica frágil e pode abrir feridas. Elevar as pernas ajuda, mas meia elástica só deve ser usada com orientação médica, porque em quem tem doença nas artérias ela pode fazer mal.

Quem tem diabetes deve ter os pés examinados pelo médico pelo menos uma vez ao ano (sensibilidade e pulsos). Qualquer ferida no pé de uma pessoa com diabetes, mesmo pequena, deve ser vista por um profissional em até 24 horas.

A pele é feita de proteína: alimentação e cicatrização

Mesa de café da manhã com ovos cozidos, pão integral, iogurte com castanhas, leite, fruta e um copo de água Proteína já no café da manhã.

Uma pele saudável e uma ferida que cicatriza precisam de energia, proteína, líquidos e vitaminas. A desnutrição aumenta o risco de lesão por pressão e atrasa qualquer cicatrização. E muitos idosos comem pouco: o apetite diminui, a dentição falha, a comida perde o sabor, a depressão e as doenças atrapalham.

Proteína em cada refeição. Idosos saudáveis precisam de cerca de 1,0 a 1,2 grama de proteína por quilo de peso por dia, e quem está doente, desnutrido ou com ferida pode precisar de 1,2 a 1,5. Para uma pessoa de 60 kg, isso é algo como 60 a 72 gramas por dia, e até 90 gramas se há ferida. Em termos práticos (valores aproximados): um ovo tem cerca de 6 gramas, 100 gramas de carne, frango ou peixe têm 25 a 30 gramas, um copo de leite ou iogurte tem 6 a 8 gramas, e o feijão com arroz também contribui. O ideal é distribuir ao longo do dia, com proteína no café da manhã, no almoço, no lanche e no jantar. Atenção: quem tem doença renal avançada precisa de orientação individual antes de aumentar proteína.

Peso é informação. Perder peso sem querer, mais de 5% em seis meses (por exemplo, 3,5 kg em quem pesa 70 kg), é um sinal que não deve ser deixado para depois. A Mini Avaliação Nutricional (MAN) é um rastreio simples de seis perguntas que ajuda a identificar o risco de desnutrição. Quando não é possível pesar ou medir a altura, a medida da panturrilha entra no lugar do índice de massa corporal. Se quiser calcular o IMC, o formulário do Cognisa já traz as faixas de referência adaptadas para quem é mais velho, que são diferentes das do adulto jovem.

Líquidos. Ofereça água, chás e sopas ao longo do dia, sem esperar a sede, que no idoso aparece tarde. A exceção são as pessoas com restrição de líquidos por doença do coração ou dos rins.

Suplementos. Doses altas de vitamina C, zinco ou aminoácidos não aceleram a cicatrização em quem não tem deficiência, e o excesso de zinco faz mal. Suplementos de colágeno vendidos “para a pele” têm evidência fraca para prevenir ou curar feridas. Já os suplementos nutricionais hipercalóricos e hiperproteicos podem ser muito úteis quando a alimentação não é suficiente. Essa decisão é do médico ou do nutricionista.

Sol, pintas e manchas

Décadas de sol deixam marcas. O câncer de pele é o mais frequente no Brasil e é mais comum depois dos 60 anos. A boa notícia é que ele costuma ser visível e, descoberto cedo, em geral tem cura.

Proteção. Use protetor solar com FPS 30 ou mais no rosto, nas orelhas, no pescoço e no dorso das mãos sempre que a pessoa for ao sol, reaplicando a cada duas horas de exposição. Chapéu de aba larga, roupas leves de manga comprida e evitar o sol entre 10h e 16h completam a proteção. A conversa sobre vitamina D é sobre dosar e suplementar quando necessário, não sobre tomar sol sem proteção.

O que observar. Peça a alguém que olhe com atenção o couro cabeludo (principalmente em quem tem pouco cabelo), as orelhas, o rosto, o dorso das mãos, as costas e as pernas. As lesões que merecem avaliação com o dermatologista são:

  • Pintas que mudam. Use a regra do ABCDE: Assimetria, Bordas irregulares, Cor variada, Diâmetro maior que 6 mm, Evolução (mudou de tamanho, forma ou cor).
  • Ferida que não cicatriza em quatro semanas, ou que sangra repetidamente e forma casca.
  • Pápula brilhante ou perolada, com pequenos vasos visíveis.
  • Manchas ásperas, escamosas, “como lixa” em áreas expostas ao sol (ceratoses actínicas).
  • Manchas escuras nas plantas dos pés, entre os dedos ou sob as unhas.

As “verrugas da idade” (ceratoses seborreicas, aquelas manchas marrons com aspecto de “cola”) e as “manchas da idade” (lentigos solares) são benignas, mas, se uma delas muda, sangra ou coça, mostre ao médico. Quem tem pele clara, muita exposição ao sol ao longo da vida ou história de câncer de pele deve fazer uma revisão anual com o dermatologista.

Sinais de alerta e o que não colocar na ferida

Procure avaliação médica em breve se notar:

  • ferida nova, ou ferida que está piorando;
  • mancha vermelha que não some em ponto de apoio (calcanhar, cóccix, quadril);
  • bolha, pele “em carne viva” ou perda de pele;
  • pus ou secreção, mau cheiro, calor no local ou dor;
  • assadura ou ferida da fralda que não melhora;
  • ferida no pé, principalmente com diabetes ou má circulação;
  • coceira muito forte, ou manchas espalhadas pelo corpo sem causa conhecida.

Procure atendimento no mesmo dia se houver:

  • febre ou calafrios;
  • confusão repentina, sonolência fora do comum ou recusa de comida. No idoso, a infecção de uma ferida nem sempre dá febre: muitas vezes aparece só assim;
  • pus com mau cheiro, vermelhidão que se espalha rápido ou em faixas, ou dor intensa;
  • ferida escura ou enegrecida, ou funda a ponto de mostrar tecidos por dentro;
  • sangramento que não para depois de dez minutos de pressão firme;
  • bolhas dolorosas em faixa de um lado do corpo, geralmente precedidas por ardência ou dor: pode ser herpes-zóster, e o antiviral funciona melhor se começar em até 72 horas. Existe vacina; converse com o médico.

O que não colocar em ferida

Muita gente, com a melhor das intenções, usa remédios caseiros. Eles atrasam a cicatrização, irritam e favorecem infecção. Não use: açúcar ou mel de cozinha, pó de café, álcool, água oxigenada, mertiolate ou mercúrio-cromo, creme dental, manteiga, clara de ovo, ervas, pomadas de antibiótico “que sobraram” ou esparadrapo colado direto na pele frágil. Também não “seque” a ferida com secador ou lâmpada.

O que ajuda: lavar com soro fisiológico ou água corrente limpa, cobrir com um curativo que não grude e procurar avaliação. As feridas de pele em idosos mudam rápido: uma foto com uma régua ou uma moeda ao lado, tirada todos os dias, mostra ao profissional como ela está evoluindo.

Por onde começar

Ninguém precisa fazer tudo de uma vez. Uma boa estratégia é escolher dois cuidados, os mais fáceis para a rotina da sua casa, e transformá-los em hábito. Para muitas famílias, o par mais eficaz é o hidratante depois do banho e o olhar diário nos pontos de apoio e nos pés.

Uma rotina possível:

  • Todo dia: banho morno e curto (ou pano úmido), hidratante, olhar a pele dos pontos de apoio e dos pés, trocar de posição, trocar a fralda sem demora.
  • Toda semana: cortar as unhas, conferir colchão e almofadas, olhar costas, couro cabeludo e pintas.
  • A cada consulta: levar as fotos de qualquer ferida, pesar, revisar os remédios (corticoides, anticoagulantes e anti-histamínicos entram na conversa) e, quando fizer sentido, preencher o Katz, a MAN e a Braden.

Para ajudar, preparamos o guia Minha Pele Protegida: três páginas com os seis cuidados, em formato de lista para marcar o que você já faz, e com espaço para anotar a prioridade da semana e as dúvidas para a consulta. Você pode baixar o guia em PDF e, se quiser, fazer a avaliação da pele: são perguntas simples sobre pele, banho, mobilidade, continência e alimentação. O resultado pode ser copiado, baixado em PDF ou enviado ao consultório para ser discutido na consulta.

Alerta: atenção individual. Este texto traz orientações gerais. Algumas condições mudam o que é seguro fazer: diabetes, doença renal (proteínas e líquidos), insuficiência cardíaca (líquidos), doença arterial (meias elásticas), uso de anticoagulantes e feridas já existentes exigem avaliação individual. Se há dúvida, pergunte ao médico, ao enfermeiro ou ao farmacêutico antes de mudar a rotina.

Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação médica presencial. Em caso de febre, pus com mau cheiro, confusão repentina ou piora rápida de uma ferida, procure atendimento no mesmo dia.

Referências

O que cada fonte sustenta, e onde a evidência termina:

  1. NPIAP, EPUAP, PPPIA. Prevention and Treatment of Pressure Ulcers/Injuries: Clinical Practice Guideline. The International Guideline. 3ª ed., 2019; 4ª ed. publicada como diretriz online “viva”, em atualização desde 2025. Base das orientações sobre reposicionamento, superfícies de apoio, cuidado da pele e nutrição na lesão por pressão. Parte das recomendações se apoia em evidência de qualidade baixa ou moderada, e foi adaptada aqui para o ambiente doméstico.
  2. Bergstrom N, et al. Turning for Ulcer ReductioN: a multisite randomized clinical trial in nursing homes. J Am Geriatr Soc 2013;61(10):1705-1713. Em residentes de casas de repouso sobre colchão de espuma viscoelástica, a frequência de mudança de posição (2, 3 ou 4 horas) não alterou a incidência de lesões. Dá base para individualizar o intervalo, mas não autoriza ficar horas sem mudar de posição, e não vale automaticamente para quem usa colchão comum.
  3. Carville K, et al. The effectiveness of a twice-daily skin-moisturising regimen for reducing the incidence of skin tears. Int Wound J 2014;11(4):446-453. Estudo randomizado em cluster, em instituições de longa permanência na Austrália: hidratante sem perfume duas vezes ao dia nos membros reduziu os rasgos de pele em cerca de 50%. A extrapolação para o domicílio é plausível, mas não foi testada diretamente.
  4. LeBlanc K, et al. (International Skin Tear Advisory Panel). Best practice recommendations for the prevention and management of skin tears in aged skin. Wounds International, 2018. Consenso de especialistas sobre prevenção, primeiros cuidados e curativos nos rasgos de pele; o nível de evidência é predominantemente de consenso.
  5. Beeckman D, et al. Proceedings of the Global IAD Expert Panel. Incontinence-associated dermatitis: moving prevention forward. Wounds International, 2015. Consenso sobre limpeza suave, proteção com barreira e troca rápida na dermatite associada à incontinência.
  6. Augustin M, et al. Diagnosis and treatment of xerosis cutis: a position paper. J Dtsch Dermatol Ges 2019;17(Suppl 7):3-33. Posicionamento sobre pele seca no idoso: emolientes com humectantes (ureia 3% a 10%, glicerina) e oclusivos. A evidência para o “melhor produto” é limitada; o hábito diário importa mais que a marca.
  7. Kaya G, Saurat JH. Dermatoporosis: a chronic cutaneous insufficiency/fragility syndrome. Dermatology 2007;215(4):284-294. Descreve o conceito de dermatoporose, a fragilidade crônica da pele do idoso.
  8. Bus SA, et al. (IWGDF). Guidelines on the prevention of foot ulcers in persons with diabetes (IWGDF 2023 update). Diabetes Metab Res Rev 2024;40(3):e3651. Fundamenta a educação para o autocuidado dos pés, o exame anual, o calçado adequado e a orientação de não andar descalço.
  9. Volkert D, et al. ESPEN practical guideline: clinical nutrition and hydration in geriatrics. Clin Nutr 2022;41(4):958-989. Metas de proteína (cerca de 1,0 g/kg/dia, e 1,2 a 1,5 g/kg/dia na doença ou desnutrição) e de hidratação no idoso. Os números são metas gerais; função renal e outras doenças exigem ajuste individual.
  10. 2023 American Geriatrics Society Beers Criteria Update Expert Panel. American Geriatrics Society 2023 updated AGS Beers Criteria for potentially inappropriate medication use in older adults. J Am Geriatr Soc 2023;71(7):2052-2081. Recomenda evitar anti-histamínicos de primeira geração em idosos (confusão, quedas, retenção urinária).
  11. Paranhos WY, Santos VLCG. Avaliação de risco para úlceras de pressão por meio da Escala de Braden, na língua portuguesa. Rev Esc Enferm USP 1999;33(n. esp.):191-206. Adaptação e validação da Escala de Braden para o português do Brasil.
  12. Dworkin RH, et al. Recommendations for the management of herpes zoster. Clin Infect Dis 2007;44(Suppl 1):S1-S26. Base para o benefício do antiviral iniciado precocemente (idealmente em até 72 horas das lesões).
  13. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Informações para o público sobre câncer de pele. Fonte institucional brasileira para fotoproteção e sinais de alerta. A regra ABCDE é uma ferramenta de rastreio visual e não substitui a avaliação do dermatologista.