Longevidade

Contra Geras: por que envelhecer bem é mais do que tratar doenças

Dr. Fausto Azambuja · 12 min de leitura · 30 de agosto de 2026

Ontem participei do Congresso Mineiro de Geriatria e assisti a uma palestra de um antigo professor. Foi uma daquelas palestras que continuam na cabeça mesmo depois que terminam.

Ele falou sobre os avanços da Geriatria no SUS e apresentou uma escala de triagem ampla, capaz de avaliar diferentes aspectos da saúde da pessoa idosa: humor, cognição, mobilidade, força muscular, nutrição, doenças, uso de medicamentos, entre outros.

A ideia é excelente.

Afinal, uma pessoa não é apenas uma doença.

Um idoso pode ter hipertensão, diabetes, perda de memória, dificuldade para andar, perda de força, problemas nutricionais, depressão, incontinência urinária e ainda usar dez medicamentos diferentes. Tudo isso se relaciona.

É por isso que a Geriatria fala tanto em avaliação multidimensional.

Mas foi justamente aí que comecei a discordar de alguns pontos da palestra.

E talvez essa discordância seja o melhor resultado que uma boa aula pode produzir.

O futuro da Medicina será uma medicina em rede

Uma das ideias mais interessantes apresentadas foi a de que a Medicina do futuro não pode mais funcionar de maneira isolada.

O idoso, especialmente o idoso frágil, precisa estar no centro de uma rede de cuidados.

Ilustração em line art de uma pessoa idosa no centro de uma rede de profissionais de saúde A pessoa no centro — não o profissional.

Médico, fisioterapeuta, nutricionista, fonoaudiólogo, educador físico, psicólogo, terapeuta ocupacional e outros profissionais precisam conversar entre si.

Não é o profissional que deve estar no centro. É a pessoa.

E isso é especialmente importante quando falamos de envelhecimento.

Também foi apresentada a experiência de alguns locais onde uma escala simples consegue identificar rapidamente idosos que precisam de maior atenção. É uma ferramenta que pode ser aplicada por profissionais de saúde e até mesmo ajudar familiares e agentes comunitários a reconhecer sinais de risco.

Isso é muito útil.

Mas existe uma diferença fundamental entre identificar um problema e resolvê-lo.

Uma escala pode dizer:

“Este idoso está em risco.”

Mas quem vai responder à pergunta:

“E agora, o que vamos fazer?”

É aí que começa a Medicina.

O médico não pode abandonar a doença!

Tenho uma enorme simpatia pela ideia de ampliar o olhar sobre o paciente.

Mas ampliar o olhar não significa abandonar o tratamento das doenças.

Pelo contrário. Médico precisa tratar doença.

Precisa saber diagnosticar. Precisa conhecer os tratamentos. Precisa conhecer as melhores evidências científicas. Precisa saber escolher medicamentos. E, principalmente na Geriatria, precisa saber qual medicamento é realmente necessário, qual é mais seguro e qual pode ser retirado.

Polifarmácia é um dos grandes problemas da velhice.

Não basta saber que aquele paciente é frágil. É preciso saber que, entre os dez medicamentos que ele toma, talvez um esteja causando tontura, outro aumentando o risco de queda, outro esteja contribuindo para confusão mental — e talvez alguns simplesmente não sejam mais necessários.

Isso não se resolve com uma escala. Isso exige conhecimento, raciocínio clínico e experiência.

Uma escala pode ser preenchida por várias pessoas. O raciocínio médico não.

Geriatria para o idoso frágil — mas e para quem quer chegar bem à velhice?

Aqui aparece uma questão que considero ainda mais interessante.

Tradicionalmente, a Geriatria se desenvolveu muito voltada para o idoso frágil, aquele que já apresenta perda funcional, múltiplas doenças, dependência ou síndromes geriátricas.

E isso é absolutamente necessário. Mas existe uma pergunta anterior: o que podemos fazer para que as pessoas não cheguem tão cedo a esse estado?

Muitos adultos chegam ao consultório de Geriatria aos 40, 50 ou 60 anos não porque já sejam idosos frágeis.

Eles chegam porque viram o que aconteceu com os próprios pais.

Viram o pai desenvolver demência. Viram a mãe quebrar o fêmur, ser internada e nunca mais recuperar a independência. Viram a perda de memória, a dificuldade para caminhar, a perda de autonomia.

E então surge uma pergunta muito humana:

“Doutor, o que eu posso fazer para não chegar assim à minha velhice?”

Essa pergunta merece ser levada a sério.

Envelhecer bem não é simplesmente não ter uma doença

É claro que devemos prevenir câncer, controlar hipertensão, diabetes, colesterol, doenças cardiovasculares e tantas outras condições.

Devemos fazer os exames preventivos indicados para cada pessoa, na idade adequada e de acordo com seu risco.

Mas será que isso é suficiente? Será que fazer colonoscopia, mamografia, avaliação da próstata e exames laboratoriais significa que estamos cuidando de uma pessoa para que ela envelheça com vitalidade?

Não necessariamente.

Porque o objetivo não deveria ser apenas aumentar o número de anos de vida. Deveríamos buscar aumentar os anos de vida com saúde, autonomia, capacidade funcional e qualidade de vida.

Não queremos simplesmente viver mais. Queremos viver melhor por mais tempo.

O tsunami de idosos está chegando

O Brasil está envelhecendo rapidamente. Ao mesmo tempo, a Medicina está ficando cada vez mais tecnológica.

Hoje conseguimos tratar doenças que, décadas atrás, seriam fatais. Podemos abrir artérias, tratar acidentes vasculares cerebrais, implantar dispositivos cardíacos, controlar doenças crônicas e prolongar a vida por muitos anos.

Isso é extraordinário. Mas existe um problema: conseguimos manter as pessoas vivas por mais tempo — mas isso não significa automaticamente que conseguiremos mantê-las independentes e saudáveis por mais tempo.

Cada novo evento de saúde pode deixar uma pequena perda funcional. Uma internação. Uma queda. Uma fratura. Uma pneumonia. Um AVC. Uma descompensação cardíaca. Uma cirurgia.

Às vezes, a pessoa sobrevive ao evento, mas não volta a ser exatamente quem era antes.

É assim que a fragilidade pode se instalar. Por isso, precisamos começar a pensar muito antes.

O músculo talvez seja um dos maiores patrimônios da velhice

Durante a palestra, surgiu uma crítica importante: muitos critérios tradicionais de fragilidade foram construídos há décadas e dão enorme importância à perda de força e massa muscular.

Concordo que a fragilidade é muito mais complexa do que simplesmente ter pouca musculatura. Mas isso não significa que o músculo seja menos importante. Muito pelo contrário.

A perda de massa e força muscular — a sarcopenia — está intimamente relacionada ao sedentarismo, às quedas, à perda de independência e a uma série de problemas de saúde.

E a perda muscular começa muito antes de alguém se considerar “idoso”. Depois dos 40 anos, já podemos começar a perder massa muscular progressivamente.

Por isso, quando alguém me diz:

“Doutor, mas eu sou um idoso robusto. Estou acima do peso, mas não tenho nenhum problema.”

Eu penso em outra pergunta: quanto músculo essa pessoa tem? Quanto ela se movimenta? Qual é a força dela?

Porque o problema não é apenas o que está acontecendo hoje. É o que esse comportamento está construindo para daqui a dez, vinte ou trinta anos.

Exercício não é apenas exercício

É por isso que considero o exercício físico uma das mais poderosas ferramentas da Medicina preventiva.

Treinamento de força não serve apenas para “ganhar músculos”. Ele ajuda a preservar autonomia, equilíbrio e capacidade funcional.

Ilustração em line art de uma pessoa subindo escadas carregando uma bolsa Não é sobre levantar peso. É sobre subir a própria escada.

A atividade física também participa da prevenção e do controle de hipertensão e diabetes, melhora a capacidade cardiorrespiratória, favorece a saúde cerebral e contribui para a vida social e emocional.

Quando pensamos em prevenção de demência, por exemplo, o exercício aparece entre as estratégias importantes justamente porque atua sobre vários fatores de risco ao mesmo tempo.

Cuidar do músculo é, em muitos sentidos, cuidar do cérebro, do coração e da independência futura.

Por isso, quando penso no envelhecimento saudável, imagino menos uma coleção de exames e mais uma pessoa capaz de levantar da cadeira, caminhar, subir escadas, carregar suas próprias coisas, brincar com os netos, viajar e continuar fazendo aquilo que considera importante.

Não queremos apenas “healthspan”. Queremos uma vida que valha a pena

Mas existe ainda uma camada mais profunda.

Imagine uma pessoa completamente independente. Ela anda bem. Tem boa musculatura. Não possui grandes doenças. Tem bons exames.

Mas perdeu a vontade de viver. Não tem propósito. Não tem projetos. Não tem alegria. Não sente que sua vida esteja caminhando para algum lugar.

Podemos dizer que essa pessoa envelheceu bem? Talvez não.

Porque saúde não é apenas funcionamento do corpo. Precisamos falar também de propósito, vínculos, alegria, significado e legado.

A pergunta talvez seja:

Qual é a sua luta diária?

O que faz você levantar da cama? O que ainda deseja construir? Para quem você quer fazer diferença? Que legado deseja deixar?

Não precisamos necessariamente criar uma escala para medir isso. Precisamos conversar sobre isso.

Geriatria ou “Presbiatria”?

Foi então que uma ideia antiga ganhou outro significado para mim.

A palavra Geriatria vem de geras, associado à velhice. Na mitologia grega, Geras é uma figura ligada à velhice e à decrepitude. Ele é filho de Nix, a Noite, e irmão de Hipnos, o Sono, e de Tânatos, a Morte.

É uma imagem poderosa. Hipnos e Tânatos caminham próximos de Geras.

Ilustração em line art de uma ampulheta se transformando em raízes, com uma coroa de louros ao redor Geras — o tempo que se torna raiz.

E talvez isso explique por que a Geriatria tradicionalmente se ocupa tanto da fragilidade, da doença, da perda funcional e da fase mais vulnerável da vida.

Mas existe outro termo grego que me interessa: presby, relacionado ao velho, ao ancião — mas também à ideia de experiência e autoridade. Daí vêm palavras como presbítero.

Penso em uma velhice diferente. Não a velhice representada apenas pelo andador, pela dependência e pela doença. Mas o velho vigoroso. Experiente. Ativo. Capaz. Com músculos. Com autonomia. Com propósito.

Um exemplo dessa imagem aparece na própria tradição grega: a figura do ancião experiente que continua participando da vida, orientando os mais jovens e, quando necessário, até mesmo indo para a batalha.

Foi daí que surgiu uma provocação pessoal: e se, além de tratar a fragilidade, nós nos dedicássemos mais a preparar as pessoas para envelhecer bem?

Eu gosto de chamar isso, ainda que de maneira provocativa, de Presbiatria. Não como uma nova especialidade médica oficial, mas como uma mudança de perspectiva.

Precisamos lutar contra Geras

Na mitologia, Hércules chegou a lutar contra Geras.

E, evidentemente, nós não vamos vencer a morte. Um dia todos nós estaremos nos braços de Nix e Tânatos. Essa é uma batalha que ninguém vence.

Mas existe uma batalha que podemos travar.

Podemos lutar contra a fragilização precoce. Contra o sedentarismo. Contra a perda de força. Contra a sarcopenia. Contra a osteoporose. Contra a perda desnecessária de autonomia. Contra o isolamento. Contra a falta de propósito.

Não podemos vencer Geras para sempre. Mas podemos resistir a ele.

Podemos chegar mais longe com força. Podemos chegar mais longe com autonomia. Podemos chegar mais longe com lucidez. Podemos chegar mais longe fazendo aquilo que amamos.

E, principalmente, podemos tentar aumentar não apenas nossa expectativa de vida, mas nossa expectativa de vida saudável.

E onde fica o consultório?

Discordei também de uma ideia que às vezes aparece quando falamos da “Medicina do futuro”: a de que o consultório tradicional precisa desaparecer.

Talvez precisemos realmente quebrar algumas paredes. Mas não as paredes do consultório. As paredes entre as profissões.

O cuidado precisa ser integrado. O médico precisa conversar com o fisioterapeuta, com o nutricionista, com o educador físico, com o fonoaudiólogo e com os demais profissionais.

Mas isso não significa que o consultório perdeu sua importância.

O consultório continua sendo um lugar de escuta, acolhimento, diagnóstico, decisão e acompanhamento.

É ali que alguém pode sentar diante do médico e perguntar:

“O que está acontecendo comigo?”

E esperar uma resposta. E essa resposta não pode ser simplesmente:

“Sua escala deu 14 pontos.”

Ela precisa ser:

“Eu entendi o que está acontecendo. Agora vamos decidir juntos o que fazer.”

A Medicina da longevidade precisa de ciência — não de moda

Hoje fala-se muito sobre longevidade. Rapamicina. Metformina. Peptídeos. Suplementos. Tecnologias. Biomarcadores. Intervenções cada vez mais sofisticadas.

Algumas dessas estratégias são promissoras. Mas precisamos separar ciência de entusiasmo.

Uma coisa é uma intervenção demonstrar resultados interessantes em estudos experimentais. Outra é sabermos que ela realmente aumenta a longevidade e, principalmente, a vida saudável de pessoas reais, com segurança.

Não podemos virar as costas para as novidades. Mas também não podemos transformar hipótese em prescrição.

O caminho é conhecer a melhor evidência disponível e saber reconhecer aquilo que ainda está no campo da promessa.

Talvez esta seja a verdadeira Medicina do futuro

No fim, talvez eu tenha saído daquela palestra com uma conclusão um pouco diferente daquela que o próprio palestrante pretendia.

Sim, precisamos de escalas. Sim, precisamos de equipes. Sim, precisamos enxergar o idoso de forma integral. Sim, precisamos abandonar a Medicina fragmentada.

Mas também precisamos de médicos muito bem preparados para diagnosticar, tratar, prevenir e tomar decisões complexas.

Precisamos de ciência. Precisamos de experiência clínica. Precisamos de raciocínio. E precisamos olhar para a pessoa antes que ela se torne frágil.

Porque talvez a grande pergunta da Geriatria não seja apenas:

“Como cuidar de quem envelheceu mal?”

Mas também:

“Como ajudar alguém a envelhecer bem?”

E é justamente aí que eu gostaria de colocar o foco deste espaço.

☕ Um café com o doutor

Este blog nasce dessa inquietação.

Quero falar sobre envelhecimento sem tratar a velhice como sinônimo de doença. Quero falar de medicamentos, mas também de músculo. De exames, mas também de movimento. De demência, mas também de prevenção. De fragilidade, mas também de força. De longevidade, mas também de propósito.

Quero falar sobre aquilo que a Medicina já sabe — e também sobre aquilo que ainda estamos tentando descobrir.

E, acima de tudo, quero conversar sobre uma pergunta que considero fundamental: não podemos escolher se vamos envelhecer. Mas quanto da maneira como vamos envelhecer ainda está nas nossas mãos?

Talvez seja essa a nossa luta contra Geras. Não para derrotá-lo — isso ninguém consegue. Mas para chegar até ele o mais tarde possível — e chegar forte, lúcido, autônomo, cercado de pessoas queridas e com vontade de continuar vivendo.

Esse é, para mim, um envelhecimento que vale a pena.

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