Primeira Consulta

Como se preparar para uma consulta geriátrica

Dr. Fausto Azambuja · 8 min de leitura · 18 de setembro de 2026

Uma consulta geriátrica começa antes de entrar no consultório.

Não porque seja preciso preencher uma pilha de formulários ou organizar a vida inteira em uma pasta. Mas porque algumas informações simples podem ajudar o médico a compreender melhor o que está acontecendo — e, principalmente, o que mais importa para aquela pessoa.

Na geriatria, não olhamos apenas para uma doença isolada. Memória, humor, sono, alimentação, força, equilíbrio, independência, medicamentos e apoio familiar podem estar conectados. Uma tontura pode ter relação com a pressão, com um remédio ou com a maneira de se levantar. Uma queda pode envolver perda de força, alteração visual, medo de caminhar ou obstáculos dentro de casa. Um esquecimento pode ser apenas uma distração, mas também pode exigir uma investigação mais cuidadosa.

Por isso, preparar-se para a consulta não significa chegar com todas as respostas. Significa trazer boas pistas.

Ilustração em line art de uma pessoa idosa sentada à mesa de casa, anotando em um caderno ao lado de uma xícara de café Preparar-se para a consulta começa em casa, com calma.

Antes de tudo: pense no que mais preocupa

É comum chegar à consulta com vários assuntos acumulados. Exames alterados, receitas de diferentes especialistas, dores antigas, esquecimentos recentes, dúvidas da família. Tudo parece importante — e muitas vezes é.

Antes da consulta, tente responder: se pudéssemos melhorar ou esclarecer uma ou duas coisas primeiro, quais fariam mais diferença na minha vida hoje?

Talvez a prioridade seja voltar a caminhar com segurança. Talvez seja entender por que a pessoa está dormindo tão pouco. Talvez seja organizar os medicamentos, investigar a perda de peso ou conversar sobre mudanças de memória.

Anotar duas ou três prioridades ajuda a começar pelo que realmente importa. Outros temas podem ser organizados ao longo do acompanhamento.

Leve os medicamentos — inclusive aqueles que parecem não contar

Ilustração em line art de uma mão organizando uma caixa aberta com frascos e cartelas de remédio dispostos de forma organizada Saber o que realmente é tomado, não só o que foi prescrito.

Uma das informações mais importantes da consulta é saber o que a pessoa realmente usa. Isso inclui:

  • medicamentos prescritos por todos os médicos;
  • remédios comprados sem receita;
  • vitaminas e suplementos;
  • fórmulas manipuladas;
  • colírios, inaladores, insulinas e outros injetáveis;
  • medicamentos usados apenas “quando necessário”;
  • chás ou produtos naturais utilizados com frequência.

Se houver uma lista, ela deve trazer o nome, a dose e o horário de cada item. Mas não se preocupe se ainda não existir uma relação organizada. É possível levar as caixas, as receitas atuais ou fotografias legíveis dos rótulos.

Um detalhe faz diferença: informe como os medicamentos são tomados na prática, mesmo que seja diferente da prescrição. Às vezes, a pessoa reduziu uma dose por conta própria, deixou de usar um remédio por causa de um efeito indesejado ou simplesmente não conseguiu comprá-lo. Essa informação não é motivo para constrangimento. Ela é necessária para que a revisão seja segura.

Receitas antigas, sozinhas, nem sempre mostram o tratamento atual.

Separe os exames que ajudam a contar a história

Não é necessário levar todos os exames realizados durante a vida. Em geral, são mais úteis:

  • exames laboratoriais recentes;
  • laudos de radiografias, tomografias ou ressonâncias relevantes;
  • relatórios de internações ou atendimentos no pronto-socorro;
  • avaliações de outros especialistas;
  • resultados relacionados ao motivo da consulta;
  • carteira de vacinação, quando disponível.

Se algum resultado estiver apenas no celular ou em um portal, verifique antes se você consegue acessá-lo. Senhas esquecidas e aplicativos que não abrem podem consumir um tempo precioso.

O mais importante não é o volume de documentos, mas a possibilidade de reconstruir o que mudou e por quê.

Anote as mudanças recentes

Algumas alterações parecem pequenas quando acontecem isoladamente. Juntas, porém, podem revelar uma mudança importante. Vale anotar se houve:

  • queda ou quase queda;
  • tontura ou insegurança para caminhar;
  • dificuldade para levantar-se de uma cadeira;
  • perda de peso ou redução do apetite;
  • engasgos;
  • mudança do sono;
  • tristeza, ansiedade, apatia ou irritabilidade;
  • esquecimentos mais frequentes;
  • dificuldade para administrar dinheiro ou medicamentos;
  • abandono de atividades que antes eram habituais;
  • perda de urina ou alteração intestinal;
  • ida ao pronto-socorro ou internação;
  • reação indesejada depois de iniciar ou modificar um remédio.

Quando possível, registre há quanto tempo isso começou e como interfere no dia a dia. “Está esquecendo mais” é uma informação válida. “Há três meses começou a repetir perguntas e se perdeu ao voltar do supermercado” ajuda ainda mais a compreender o problema.

Quando vale a pena ir acompanhado

Ilustração em line art de uma pessoa idosa e um familiar sentados lado a lado, em conversa Acompanhar é somar uma voz, não substituir a outra.

Um familiar, amigo ou cuidador pode ajudar muito, especialmente quando existem dificuldades de memória, audição, comunicação ou mobilidade. O acompanhante também pode contribuir quando houve uma internação recente, mudanças de comportamento, muitos medicamentos ou dependência para atividades cotidianas.

Mas acompanhar não significa responder por tudo.

Sempre que possível, a própria pessoa idosa deve ser ouvida primeiro. O acompanhante acrescenta informações, ajuda a lembrar acontecimentos e pode anotar as orientações. Ele não deve retirar a voz, a privacidade ou a autonomia de quem está sendo atendido.

Antes da consulta, vale combinar qual será o papel de cada um. Também pode haver um momento reservado para uma conversa particular entre paciente e médico.

Óculos, aparelhos auditivos e auxiliares de marcha também fazem parte da consulta

Uma avaliação só é boa quando a pessoa consegue participar dela.

Por isso, leve os óculos utilizados habitualmente e compareça com o aparelho auditivo funcionando, quando houver. Bengala, andador ou outro dispositivo usado no dia a dia também deve acompanhar o paciente. Eles ajudam a avaliar a comunicação e a mobilidade em condições mais próximas da realidade.

Se estiver difícil ouvir, enxergar ou compreender alguma explicação, diga isso claramente. Pedir que uma informação seja repetida ou escrita faz parte do cuidado.

O que o geriatra poderá perguntar

Algumas perguntas podem parecer distantes do motivo inicial da consulta. Ainda assim, elas ajudam a formar uma visão mais completa. O geriatra pode querer saber sobre:

  • memória, atenção e capacidade de tomar decisões;
  • humor, comportamento e sono;
  • força, caminhada, equilíbrio e quedas;
  • peso, alimentação, hidratação e funcionamento intestinal;
  • capacidade de tomar banho, vestir-se e usar o banheiro;
  • organização das compras, finanças, transporte e medicamentos;
  • doenças anteriores, cirurgias e internações;
  • apoio familiar, cuidador e condições da casa;
  • objetivos, preferências e prioridades da própria pessoa.

Esses assuntos não são um desvio. Eles ajudam a entender como a saúde está afetando a vida — e como a vida está afetando a saúde.

Nem tudo precisa ser resolvido em um único encontro

A avaliação geriátrica costuma reunir muitas dimensões. Em alguns casos, a primeira consulta identifica prioridades e riscos. Os encontros seguintes permitem revisar exames, aplicar testes, conciliar medicamentos, avaliar melhor a funcionalidade e construir um plano de cuidado mais seguro.

Isso não significa que a primeira consulta ficou incompleta. Significa que o cuidado foi organizado em etapas.

Uma boa consulta não é aquela que produz o maior número de pedidos e receitas. É aquela que ajuda a responder às perguntas certas, estabelece prioridades e define o próximo passo possível.

Um checklist simples para levar

Ilustração em line art de um checklist manuscrito sobre a mesa, com alguns itens já marcados, ao lado de um lápis e chaves de casa Um checklist simples, não mais uma obrigação.

Antes de sair de casa, confira:

  • Lista, caixas ou fotografias de todos os medicamentos
  • Doses e horários realmente utilizados
  • Exames e relatórios recentes mais relevantes
  • Informação sobre alergias e reações a medicamentos
  • Registro de quedas, internações ou mudanças recentes
  • Óculos e aparelho auditivo funcionando
  • Bengala ou andador utilizado habitualmente
  • Nome e contato do familiar ou cuidador principal
  • Duas ou três prioridades para conversar
  • Papel, celular ou caderno para anotar as orientações

Se alguma dessas informações não estiver disponível, vá à consulta assim mesmo. O checklist existe para ajudar, não para criar mais uma obrigação.

Preparar-se é participar do cuidado

Levar informações organizadas melhora a segurança, mas o mais importante é chegar disposto a conversar com franqueza.

Conte o que está funcionando e o que não está. Diga se uma orientação é difícil de cumprir, se o custo do tratamento pesa no orçamento ou se a família não consegue oferecer o apoio imaginado. Um plano só é bom quando cabe na vida real.

A consulta geriátrica não deve ser uma conversa sobre a pessoa idosa. Deve ser uma conversa com ela.

E, quando paciente, família e médico conseguem reconhecer juntos o que merece atenção primeiro, a consulta deixa de ser apenas um encontro. Ela se torna o início — ou a continuidade — de um cuidado com direção.

Próximo passo

Antes da sua próxima consulta, salve este checklist e escolha as duas questões que mais gostaria de compreender ou melhorar. Leve-as com você.

Baseado em orientações do National Institute on Aging (EUA) e da Organização Mundial da Saúde (ICOPE).

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