A televisão ficou mais alta
Quando a dificuldade de ouvir começa a afastar a pessoa das conversas — e como a família pode ajudar.
Na casa de seu Geraldo, 78 anos, o volume da televisão sobe um pouquinho a cada mês. Hoje o vizinho já ouve o jornal da noite.
“Pai, abaixa isso!”, pede a filha, Marta.
“Está baixo. Eu mal escuto.”
Nos almoços de domingo, ele sorri, acena com a cabeça e quase não fala. Quando alguém lhe pergunta algo, responde “hã?” ou diz uma coisa que não tem nada a ver. Um dia, pediu para comer na cozinha, “que lá é mais sossegado”. Marta ficou com medo: será que é a memória? Será que ele está ficando ranzinza?
“Está baixo. Eu mal escuto.”
Muitas vezes não é desinteresse, nem teimosia, nem esclerose. É que ele não está ouvindo, e isso tem jeito.
Por que passa despercebido
A perda de audição com a idade costuma vir devagar, ao longo de anos. O cérebro se acostuma e a pessoa não percebe o que perdeu.
- Ouve a voz, mas não entende as palavras. Os sons agudos somem primeiro, e com eles letras como s, f e t. “Ouço, mas não entendo” é a queixa mais típica.
- Disfarça. Sorri, concorda, responde “é mesmo” sem ter entendido.
- Piora no barulho. Restaurante, festa, mesa cheia: tudo vira um zumbido de vozes.
- Tem vergonha. Para muita gente, aparelho de ouvido é “coisa de velho”, e admitir que não ouve é admitir que envelheceu.
Alguns sinais para observar:
- Pede para repetir, ou responde algo diferente do que foi perguntado.
- Aumenta a televisão e não percebe que incomoda os outros.
- Evita telefone, restaurante, festa, reunião de família.
- Acha que “todo mundo fala baixo” ou “fala enrolado”.
- Cansa depois de conversar, de tanto esforço para acompanhar.
- Zumbido no ouvido, ou tontura.
Primeiro: foi de repente?
Perda de audição que aparece em horas ou poucos dias, principalmente em um ouvido só, é urgência. Se vier com zumbido novo, tontura, dor ou secreção no ouvido, procure um otorrinolaringologista ou um pronto-atendimento no mesmo dia. Quanto mais cedo o tratamento, maiores as chances de recuperar a audição.
Se a mudança veio junto com sonolência ou confusão, pode ser outra coisa, como delirium. Veja os sinais de alerta no idoso.
Antes do aparelho: o que tem causa tratável?
Nem toda dificuldade de ouvir é “da idade”. Vale investigar:
- Cera (cerume). É comum e tampa o canal do ouvido. Não use cotonete, vela nem objeto pontudo: empurra a cera e machuca. O médico retira em poucos minutos.
- Infecção: dor, secreção, ouvido “entupido” depois de um resfriado.
- Remédios. Alguns antibióticos, alguns diuréticos (como a furosemida, Lasix) e certos quimioterápicos podem afetar a audição. Se suspeitar, conte ao médico. Não suspenda de uma vez nenhum remédio por conta própria.
- Um ouvido muito pior que o outro, ou zumbido de um lado só: precisa de avaliação.
Para a consulta: água, lanterna, anotações e o estojo do aparelho.
O próximo passo é a audiometria, exame simples e indolor, feito com otorrinolaringologista ou fonoaudiólogo. Ela mostra quanto e quais sons a pessoa deixou de ouvir.
Conversar com quem ouve mal
Ajuda muito, e não custa nada:
- Chame a atenção antes de falar. Toque no braço, diga o nome, espere ele olhar.
- Fique de frente, com a luz no seu rosto. Muita gente lê os lábios sem saber.
- Fale devagar e com clareza, sem gritar. Gritar distorce a voz e soa como bronca. Um tom um pouco mais grave e pausado funciona melhor.
- Frases curtas. Uma ideia por vez.
- Se não entendeu, diga de outro jeito, em vez de repetir a mesma frase mais alto.
- Desligue a televisão e o rádio antes de conversar.
- Em grupo, ele senta onde enxerga o rosto de todos, longe da caixa de som e do barulho da cozinha.
De frente, com a luz no rosto de quem fala.
A televisão, sem aumentar o volume
- Ligue as legendas. É o ajuste que mais ajuda, e quem ouve bem também acaba gostando.
- Fone sem fio ou caixa de som pequena perto da poltrona. Ele ouve alto, e a casa fica em paz.
- Sente-o mais perto da tela.
- Telefone: mande mensagem escrita, ou prefira chamada de vídeo, em que ele vê o rosto.
- Segurança: campainha com luz e alarme de fumaça com sinal forte. Quem ouve mal pode não escutar o alarme de noite. Dificuldade de ouvir também aumenta o risco de acidente: veja Cair não é “coisa de velho”.
Legendas ligadas e um fone na poltrona: a sala em paz.
Por que vale tratar
Quem ouve mal se afasta. Para de ir à igreja, deixa de atender o telefone, come na cozinha. A solidão pesa no humor e na memória. Estudos associam a perda de audição sem tratamento a mais isolamento e a mais risco de demência. Ainda se pesquisa quanto o aparelho protege a memória, mas uma coisa já é clara: quem volta a participar das conversas volta a ser visto e a se sentir parte.
Há ainda outro ponto: quem ouve mal pode ir mal em testes de memória só porque não entendeu a pergunta. Conte ao médico que há dificuldade de audição, e leia também Mais do que esquecer.
Como convencer, e como é o aparelho
Evite “você está surdo” e “você precisa de aparelho”. Funciona melhor falar do que a pessoa ganha:
- “Quero ouvir sua história sem precisar repetir. Vamos fazer um exame juntos?”
- Vá junto. Quem vai acompanhado vai com menos medo.
- Se a recusa vier, não insista no mesmo dia. Volte ao assunto com calma.
Se o aparelho for indicado, saiba que o cérebro leva semanas para se acostumar. No começo o som é estranho e metálico. Comece usando poucas horas por dia e aumente aos poucos. Ajuda deixar sempre o aparelho no mesmo estojo, no mesmo lugar, e ajudar na limpeza e na pilha ou no carregador. Em casos mais leves, existem amplificadores simples de bolso, que podem ser um primeiro passo. Pergunte ao otorrinolaringologista ou ao fonoaudiólogo o que serve para o seu familiar.
Se a pessoa tem demência, o aparelho precisa entrar na rotina como os óculos: colocar de manhã, guardar à noite, com o nome escrito no estojo.
Em vez de… experimente
| Em vez de | Experimente |
|---|---|
| “Já falei três vezes!” | Esperar, olhar de frente e dizer de outro jeito |
| “Você só ouve o que quer.” | “Vou me sentar de frente para você, assim fica mais fácil.” |
| “Deixa pra lá, depois eu conto.” | Contar de novo, em frase curta, com ele olhando |
| Gritar da outra sala | Ir até ele, tocar no braço, falar de frente |
Quem cuida também cansa de repetir
Repetir o dia inteiro cansa. Dá vontade de desistir, de falar com os outros e deixar ele “no cantinho”. Isso é humano e não faz de você uma má filha ou um mau marido. Mas lembre: ele não está fazendo de propósito. Se o cansaço está pesando, leia Quem cuida também precisa ser cuidado.
Repetir o dia inteiro cansa, e cansar não faz de ninguém uma pessoa ruim.
O que levar à consulta
Anote em poucas linhas:
- Quando você notou a dificuldade de ouvir.
- Se veio de repente ou aos poucos, e se é de um ouvido ou dos dois.
- Zumbido, tontura, dor ou secreção no ouvido.
- Remédios em uso, inclusive os comprados sem receita.
- Em que situações falha mais: televisão, telefone, restaurante, grupo.
- Se já fez audiometria ou se já usa aparelho.
- Se a memória, o humor ou a vontade de sair mudaram junto.
As páginas Atena e Héstia, do Cognisa, trazem mais materiais sobre cognição e vida em casa.
Para a geladeira: um checklist de uma página (PDF) com o essencial deste texto.
O almoço de domingo, depois
Marta ligou as legendas, comprou um fone para a televisão e passou a conversar com o pai de frente, com a luz da janela no rosto. Levou-o ao otorrino. O aparelho incomodou no primeiro mês, e seu Geraldo reclamou muito.
No domingo seguinte, ele ficou à mesa com todos. Quando alguém contou uma piada, ele riu no tempo certo.
Nada devolveu a audição que ele tinha aos cinquenta anos. Mas a família mudou a forma de falar com ele, e a cadeira à mesa voltou a ser dele.
Este texto é informativo e não substitui a avaliação médica.