Família

A televisão ficou mais alta

Quando a dificuldade de ouvir começa a afastar a pessoa das conversas — e como a família pode ajudar.

#audição#demência#cuidador#funcionalidade

Dr. Fausto Azambuja · 7 min de leitura · 10 de outubro de 2026

Na casa de seu Geraldo, 78 anos, o volume da televisão sobe um pouquinho a cada mês. Hoje o vizinho já ouve o jornal da noite.

“Pai, abaixa isso!”, pede a filha, Marta.

“Está baixo. Eu mal escuto.”

Nos almoços de domingo, ele sorri, acena com a cabeça e quase não fala. Quando alguém lhe pergunta algo, responde “hã?” ou diz uma coisa que não tem nada a ver. Um dia, pediu para comer na cozinha, “que lá é mais sossegado”. Marta ficou com medo: será que é a memória? Será que ele está ficando ranzinza?

Sala de estar: um idoso na poltrona diante da televisão, com a mão em concha atrás da orelha; a filha, em pé ao fundo, tapa o ouvido com uma expressão preocupada. “Está baixo. Eu mal escuto.”

Muitas vezes não é desinteresse, nem teimosia, nem esclerose. É que ele não está ouvindo, e isso tem jeito.

Por que passa despercebido

A perda de audição com a idade costuma vir devagar, ao longo de anos. O cérebro se acostuma e a pessoa não percebe o que perdeu.

  • Ouve a voz, mas não entende as palavras. Os sons agudos somem primeiro, e com eles letras como s, f e t. “Ouço, mas não entendo” é a queixa mais típica.
  • Disfarça. Sorri, concorda, responde “é mesmo” sem ter entendido.
  • Piora no barulho. Restaurante, festa, mesa cheia: tudo vira um zumbido de vozes.
  • Tem vergonha. Para muita gente, aparelho de ouvido é “coisa de velho”, e admitir que não ouve é admitir que envelheceu.

Alguns sinais para observar:

  • Pede para repetir, ou responde algo diferente do que foi perguntado.
  • Aumenta a televisão e não percebe que incomoda os outros.
  • Evita telefone, restaurante, festa, reunião de família.
  • Acha que “todo mundo fala baixo” ou “fala enrolado”.
  • Cansa depois de conversar, de tanto esforço para acompanhar.
  • Zumbido no ouvido, ou tontura.

Primeiro: foi de repente?

Perda de audição que aparece em horas ou poucos dias, principalmente em um ouvido só, é urgência. Se vier com zumbido novo, tontura, dor ou secreção no ouvido, procure um otorrinolaringologista ou um pronto-atendimento no mesmo dia. Quanto mais cedo o tratamento, maiores as chances de recuperar a audição.

Se a mudança veio junto com sonolência ou confusão, pode ser outra coisa, como delirium. Veja os sinais de alerta no idoso.

Antes do aparelho: o que tem causa tratável?

Nem toda dificuldade de ouvir é “da idade”. Vale investigar:

  • Cera (cerume). É comum e tampa o canal do ouvido. Não use cotonete, vela nem objeto pontudo: empurra a cera e machuca. O médico retira em poucos minutos.
  • Infecção: dor, secreção, ouvido “entupido” depois de um resfriado.
  • Remédios. Alguns antibióticos, alguns diuréticos (como a furosemida, Lasix) e certos quimioterápicos podem afetar a audição. Se suspeitar, conte ao médico. Não suspenda de uma vez nenhum remédio por conta própria.
  • Um ouvido muito pior que o outro, ou zumbido de um lado só: precisa de avaliação.

Bandeja de madeira vista de cima, com um copo d'água, um estojo de aparelho auditivo aberto e vazio, uma lanterna pequena, um bloco de anotações com caneta e uma caixa de lenços. Para a consulta: água, lanterna, anotações e o estojo do aparelho.

O próximo passo é a audiometria, exame simples e indolor, feito com otorrinolaringologista ou fonoaudiólogo. Ela mostra quanto e quais sons a pessoa deixou de ouvir.

Conversar com quem ouve mal

Ajuda muito, e não custa nada:

  • Chame a atenção antes de falar. Toque no braço, diga o nome, espere ele olhar.
  • Fique de frente, com a luz no seu rosto. Muita gente lê os lábios sem saber.
  • Fale devagar e com clareza, sem gritar. Gritar distorce a voz e soa como bronca. Um tom um pouco mais grave e pausado funciona melhor.
  • Frases curtas. Uma ideia por vez.
  • Se não entendeu, diga de outro jeito, em vez de repetir a mesma frase mais alto.
  • Desligue a televisão e o rádio antes de conversar.
  • Em grupo, ele senta onde enxerga o rosto de todos, longe da caixa de som e do barulho da cozinha.

Filha sentada diante do pai, à mesa da sala, com a luz da janela no rosto dela; os dois conversam, a mão dela sobre o antebraço dele, e a televisão ao fundo está desligada. De frente, com a luz no rosto de quem fala.

A televisão, sem aumentar o volume

  • Ligue as legendas. É o ajuste que mais ajuda, e quem ouve bem também acaba gostando.
  • Fone sem fio ou caixa de som pequena perto da poltrona. Ele ouve alto, e a casa fica em paz.
  • Sente-o mais perto da tela.
  • Telefone: mande mensagem escrita, ou prefira chamada de vídeo, em que ele vê o rosto.
  • Segurança: campainha com luz e alarme de fumaça com sinal forte. Quem ouve mal pode não escutar o alarme de noite. Dificuldade de ouvir também aumenta o risco de acidente: veja Cair não é “coisa de velho”.

Sala de estar: poltrona com manta clara e um fone de ouvido sobre o braço, ao lado de uma luminária de pé acesa; a televisão está ligada, com uma barra de legenda na parte de baixo da tela. Legendas ligadas e um fone na poltrona: a sala em paz.

Por que vale tratar

Quem ouve mal se afasta. Para de ir à igreja, deixa de atender o telefone, come na cozinha. A solidão pesa no humor e na memória. Estudos associam a perda de audição sem tratamento a mais isolamento e a mais risco de demência. Ainda se pesquisa quanto o aparelho protege a memória, mas uma coisa já é clara: quem volta a participar das conversas volta a ser visto e a se sentir parte.

Há ainda outro ponto: quem ouve mal pode ir mal em testes de memória só porque não entendeu a pergunta. Conte ao médico que há dificuldade de audição, e leia também Mais do que esquecer.

Como convencer, e como é o aparelho

Evite “você está surdo” e “você precisa de aparelho”. Funciona melhor falar do que a pessoa ganha:

  • “Quero ouvir sua história sem precisar repetir. Vamos fazer um exame juntos?”
  • Vá junto. Quem vai acompanhado vai com menos medo.
  • Se a recusa vier, não insista no mesmo dia. Volte ao assunto com calma.

Se o aparelho for indicado, saiba que o cérebro leva semanas para se acostumar. No começo o som é estranho e metálico. Comece usando poucas horas por dia e aumente aos poucos. Ajuda deixar sempre o aparelho no mesmo estojo, no mesmo lugar, e ajudar na limpeza e na pilha ou no carregador. Em casos mais leves, existem amplificadores simples de bolso, que podem ser um primeiro passo. Pergunte ao otorrinolaringologista ou ao fonoaudiólogo o que serve para o seu familiar.

Se a pessoa tem demência, o aparelho precisa entrar na rotina como os óculos: colocar de manhã, guardar à noite, com o nome escrito no estojo.

Em vez de… experimente

Em vez deExperimente
“Já falei três vezes!”Esperar, olhar de frente e dizer de outro jeito
“Você só ouve o que quer.”“Vou me sentar de frente para você, assim fica mais fácil.”
“Deixa pra lá, depois eu conto.”Contar de novo, em frase curta, com ele olhando
Gritar da outra salaIr até ele, tocar no braço, falar de frente

Quem cuida também cansa de repetir

Repetir o dia inteiro cansa. Dá vontade de desistir, de falar com os outros e deixar ele “no cantinho”. Isso é humano e não faz de você uma má filha ou um mau marido. Mas lembre: ele não está fazendo de propósito. Se o cansaço está pesando, leia Quem cuida também precisa ser cuidado.

Filha sentada sozinha à mesa da cozinha, à noite, com uma caneca de chá nas mãos e o olhar cansado, sob uma luminária acesa. Repetir o dia inteiro cansa, e cansar não faz de ninguém uma pessoa ruim.

O que levar à consulta

Anote em poucas linhas:

  1. Quando você notou a dificuldade de ouvir.
  2. Se veio de repente ou aos poucos, e se é de um ouvido ou dos dois.
  3. Zumbido, tontura, dor ou secreção no ouvido.
  4. Remédios em uso, inclusive os comprados sem receita.
  5. Em que situações falha mais: televisão, telefone, restaurante, grupo.
  6. Se já fez audiometria ou se já usa aparelho.
  7. Se a memória, o humor ou a vontade de sair mudaram junto.

As páginas Atena e Héstia, do Cognisa, trazem mais materiais sobre cognição e vida em casa.

Para a geladeira: um checklist de uma página (PDF) com o essencial deste texto.

O almoço de domingo, depois

Marta ligou as legendas, comprou um fone para a televisão e passou a conversar com o pai de frente, com a luz da janela no rosto. Levou-o ao otorrino. O aparelho incomodou no primeiro mês, e seu Geraldo reclamou muito.

No domingo seguinte, ele ficou à mesa com todos. Quando alguém contou uma piada, ele riu no tempo certo.

Nada devolveu a audição que ele tinha aos cinquenta anos. Mas a família mudou a forma de falar com ele, e a cadeira à mesa voltou a ser dele.

Este texto é informativo e não substitui a avaliação médica.